segunda-feira, julho 16, 2012

Saudade(s)

Uma vez me disseram que saudade só se usa no singular, porque é um substantivo abstrato que retrata emoções. É errado dizer que sentimos raivas ou penas... portanto, não sentimos saudades, mas sim saudade. Até hoje não consegui confirmar a informação, mas, na paranoia de usar sempre o português correto, parei de usar saudades e adotei a solitária saudade no vocabulário. Mal sabia eu que minha vida iria dar uma reviravolta, como a que aconteceu há exatos 3 meses...

Nunca escondi a paixão pelos meus avós - como no post sobre o talento de minha avó ao piano ou no relato sobre os curiosos costumes dos dois. Imaginem então qual não foi minha dor quando, no dia 16 de abril de 2012, perdi para sempre a minha avó querida.

As sensações foram muitas e tudo aconteceu tão rápido que fica até difícil de explicar. No momento em que tudo aconteceu, perdi totalmente as forças. Onde estava, sentei no chão e me coloquei a chorar compulsivamente, não querendo acreditar. Ninguém esperava por aquilo, afinal, ela estava bem!

Naquela noite, pensei muito, muito em minha avó. Me ensinaram que eu deveria mentalizá-la dentro de uma bola de luz, feliz e com semblante sereno, assim como a encontramos falecida em sua cama, e que isso a ajudaria a subir em paz, tranquila. E foi o que fiz: pensei nela com tanta força, dentro daquela bola de luz, com aquele sorriso tão lindo de sempre, que de repente fui invadida por uma sensação enorme de paz. Parei de chorar, e naquele momento tive a certeza de que ela estava bem.

Senti que, naquele momento, surgia uma força dentro de mim que jamais imaginei ser possível, um amadurecimento instantâneo e uma mudança imediata na forma de ver o mundo... Quase conseguia ouvir a sua voz dizendo: "está tudo bem comigo, agora seja firme e cuide do seu avô." E voltei a encarar a vida como ela sempre fez: com força, com alegria e, acima de tudo, com muito amor.

Dois meses depois, o que fica é a saudade...

Tenho saudade de ligar pra ela quando chego em casa do trabalho.
Saudade de pedir que ela acenda uma vela para Santo Expedito quando estou em um momento importante da vida.
Tenho saudade de suas sopinhas de café com leite, e do creme de chocolate que ela fazia quando eu era pequena.
De quando íamos juntas à praia ou à piscina.
Saudade de quando ela cantava músicas a partir de qualquer palavra que você dissesse.
E de quando ela tocava "Fascinação" no meu teclado.
E quando dançava "New York, New York" com meu avô em qualquer lugar que fosse.
Saudade de quando ela me ensinou a costurar roupinhas para as bonecas, quando eu ia passar as tardes lá.
E de quando fazíamos pesquisas juntas nas enciclopédias, para meus trabalhos da escola.
Saudade do seu cheiro de vovó.
Das suas palavras sempre positivas.

Do seu carinho.

Alguém uma vez disse que saudade não se usa no plural. O português que me desculpe, mas são tantas saudades que resolvi voltar a usá-las todas do jeito que bem entender.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

Férias


Os pés adoraram ficar sem salto alto.
A pele queimada de sol já nem lembra mais o que é ar condicionado.
Os cabelos tiraram férias do secador e da chapinha.
Os olhos já se esqueceram da maquiagem.
A cabeça deixou em São Paulo todas as preocupações.

Sentada ao pé da belíssima cachoeira, chorou. Botou pra fora o restinho de 2011 que ainda restava ali, e suas lágrimas mornas correram com a água gelada para sabe-se lá aonde. Enquanto isso, novas e energizadas águas vinham até ela.

Era o último dia do ano.

sexta-feira, dezembro 16, 2011

Do ausente que incomoda

Um amigo me falou uma vez que, quando a gente escreve sobre alguma coisa, parece que essa coisa se resolve dentro da gente. Principalmente quem não só gosta muito de escrever, mas que sente quase que uma necessidade de por pra fora o que está lá dentro.

Então resolvi escrever, pra ver se resolvia. O problema é que não sei ainda do que se trata. E quando a gente não sabe exatamente o que incomoda, como faz? Daí lembrei de novo daquela frase da Camille Claudel que dizia: "Há sempre algo ausente que me incomoda". Digamos que não há SEMPRE algo que incomoda, mas o fato é que há algo. E ele me incomoda, é obscuro, como um calinho na memória que a gente não sabe bem o que causou.

Quem sabe escrevendo o que vem à cabeça, estas palavras que digito loucamente agora, eu possa ler daqui a algum tempo e entender o que acontece. Nem que seja pra dizer: "mas que idiota", que é um pouco como me sinto sempre que leio um de meus textos. Engraçado que nunca parece que fui eu que escrevi. E não foi um espírito que baixou (tipo o Blogs do Além, do Vitor Knijnik), fui eu mesma. Mas depois, parece que não sei. Que não fui eu. Ou, se tiver sido eu, "mas que idiota".

O fato é que parece que existe uma instabilidade dentro de mim. A impressão é a de que todos os aspectos da minha vida estão mudando, e sem intervalos. Mudam absolutamente em todos os minutos, numa crescente de aprendizado e amadurecimento. Mas um amadurecimento que não traz serenidade, pelo contrário! Traz inquietude, medo do que pode vir pela frente, medo de aceitar os próprios sentimentos.

Eu, que amo e odeio a rotina com a mesma intensidade. Porque gosto de ter o controle das coisas - traço típico de leoninos -, de saber o que vem agora, o que vai acontecer amanhã, sensação de pilotar a própria vida e muitas vezes as dos outros. Odeio com a mesma intensidade, pela solidão que sinto quando não acontece nada de novo, pelo encantamento que me causam as surpresas. Porque essa instabilidade pode ser boa também, é uma inquietude que traz frio na barriga, aquele medo do que pode vir pela frente, mas com uma sensação de que pode ser sim muito bom, por que não? Vai do otimismo da pessoa, ou do estado de espírito.

Sensação de que, aos poucos, me desprego de quem eu sou de verdade, deixando uma essência lá atrás, como uma cobra que troca de pele e deixa seu passado perdido em algum lugar. Aquela que dava valor a tantas outras coisas que agora não fazem o menor sentido, e que por sua vez deram lugar a outras que outrora eram inimagináveis... alguma delas é a certa, será?

Não sei. Parece que venho perdendo a minha força. Eu, que sempre fui forte, de repente perco essa força junto com a pele que ficou lá atrás. E perco consequentemente a capacidade de estabelecer limites nas mais diversas situações. A mim, às outras pessoas. E, nesse mundão de meu Deus, não saber estabelecer limites é quase como pedir que abusem da sua capacidade. Física e mental. Me vejo frágil, sensível, debilitada. Física e mentalmente.

Mas não perdi a fé vida, ainda que saiba que a fé vai precisar de um bocado de atitude no pacote, pra ajudar a mudar alguma coisa.

terça-feira, agosto 23, 2011

Ação!

Poucas coisas me estimulam tanto quanto a sede por conhecimentos novos. Desde pequena, sempre fui muito curiosa - em vez de brincar com as bonecas, arrancava seus braços e pernas para saber como eram feitas, e intrigava meus pais, tirando as teclas do controle remoto e da calculadora pra olhar ali dentro e saber como era - e vira-e-mexe era surpreendida num cantinho, lendo algum livro, com 6 anos de idade.

Essa busca me levou a uma série de atitudes ao longo da vida. Uma delas foi estudar jornalismo, onde eu aprendi a questionar ainda mais as coisas, e mais do que isso: aprendi a formular as perguntas certas para descobrir o que eu queria saber. O jornalismo me tornou uma pessoa ainda mais curiosa e sedenta por informações sobre os mais variados temas. Informações e experiências novas, que me mantiveram viva e ativa durante durante esta fase.

A curiosidade, aliada à busca por estas novas experiências, também foi o que me fez deixar a Neotix, cerca de 2 meses atrás, e 5 anos depois de ter começado a caminhada junto aos meninos. Hoje temos quilômetros de histórias pra contar, os quais eu guardo com carinho em um capítulo muito importante da minha vida.

Em junho de 2011, comecei uma nova experiência junto à Energy - Y&R. Estava ali o desafio que eu queria: o de estar em uma agência grande, com estrutura de empresa e flexibilidade (leia-se: entrar não muito tarde e sair muito muito tarde) de agência. Foi novidade atrás de novidade desde este turbulento começo. Sim, turbulento porque eu acabava de deixar a zona máxima de conforto para entrar num mundo totalmente novo, com novos colegas, clientes e projetos. No início, mal sabia o nome e as funções das pessoas, e aos poucos fui identificando os papéis e perfis dali.

Neste final de semana, pela primeira vez, acompanhei as filmagens de uma campanha que estou fazendo. Mesmo com o frio que estava e a chuva que insistia em cair, acompanhamos as gravações no sábado, domingo e segunda-feira. Fiquei maravilhada de verdade com o trabalho da produtora, com a quantidade de profissionais envolvidos em uma produção relativamente simples como essa, e o mais incrível - como as coisas funcionam bem! É engraçado pensar que tanta gente pode se entender tão bem: basta que cada um saiba o seu papel e o execute corretamente. Não tem segredo.

Eu não tinha a obrigação profissional de acompanhar as filmagens. Claro, era de bom tom que eu desse pelo menos uma olhada em como estavam indo as coisas. Mas fiz questão de estar presente todos os dias. Cada grito de "Ação!" ou "Corta!" do diretor me traziam pra um mundo totalmente novo até então. A sensação de gravar no meio da 23 de Maio, bem em frente ao Obelisco, ou ainda de encher a Hot Hot com equipamentos e criar um restaurante lindo lá dentro, me trouxeram um vigor diferente.

Uma sensação nova, a percepção de que o mundo lá fora é tão grande, cheio de possibilidades e pessoas interessantes, e que às vezes a gente fica fechado numa bolha sem nem imaginar que certas coisas são possíveis. É preciso se mexer um pouco nesta busca por novidades, experiências, e consequentemente, crescimento.

AÇÃO!

segunda-feira, agosto 15, 2011

Às margens do Ipiranga

Sábado foi dia de levar meu carro para colocar acessórios. Sim, ele tem um ano e eu ainda tinha que abrir os vidros na “manivela” (o do banco do passageiro então, era aquela manobra) e conferir todos os dias se as quatro portas estavam fechadas, além de não ter alarme, o que não impede nada hoje em dia, mas pelo menos ajuda a dificultar o roubo.

Mas não é sobre isso que eu quero falar. Acontece que o fato de eu ter ficado sem carro durante um dia todo praticamente me obrigou a andar a pé pelo bairro do Ipiranga, onde fica não só a oficina, mas também alguns dos lugares mais interessantes da cidade. Sem que eu soubesse disso!



Logo ao lado da oficina, na Av. Nazaré, me deparei com um globo grande e prateado. Mostrava a posição do sol em relação à Terra e eu, curiosa que sou, fiquei lendo as explicações daquele globo até que, de repente, resolvi olhar pra dentro do local e avistei um grande esqueleto de dinossauro. Sim, isso mesmo! Sem saber, estava em frente ao Museu de Zoologia da USP, um casarão lindo e superinteressante que abriga milhares de exemplares de animais. Na entrada, fósseis e explicações sobre como eles se formam. Em seguida, diversos animais empalhados, aves, mamíferos e insetos. Me senti no filme “Uma noite no museu”, afinal era pouco mais de 8h da manhã e eu estava sozinha no local. Apesar de receber excursões de escolas todos os dias, era cedo demais e elas ainda não haviam chegado.

Quase duas horas de passeio pelos mais variados itens da nossa fauna, uma verdadeira viagem por todos os continentes, segui o passeio. Esqueci de comentar que, ao comprar o ingresso para o Museu de Zoologia (a inteira custa R$ 6,00), você ganha uma entrada para o Museu Paulista, popularmente conhecido como Museu do Ipiranga, e vice-versa. Logo, eu tinha agora um ingresso para conhecer um pouco mais sobre a história da nossa cidade neste outro museu.

Descendo um pouco pela própria Avenida Nazaré, chega-se ao Parque da Independência, onde fica o famoso Monumento ao Centenário da Independência, de 1922. O parque é maravilhoso, e mais ainda é o Museu Paulista, que fica bem no alto. Lá, podemos encontrar muito da história do Brasil e principalmente de São Paulo, uma linha do tempo que começa com os Bandeirantes e a formação da Vila de São Vicente, passando pela transformação dos serviços públicos e ofícios na cidade até os principais itens do cotidiano doméstico dos paulistanos no século XIX, como os utensílios para banho e até a curiosa escarradeira, usada nas casas das pessoas mais ricas para que os convidados pudessem – isso mesmo! – retirar o excesso de saliva e catarro do organismo.



Eu havia me esquecido do quanto gostava de história. Viajei pelos quadros, objetos, bustos de ex-presidentes e anúncios de lojas divulgando serviços e produtos que hoje não se vê mais. Bateu uma esperança gostosa ao ver algumas crianças realmente interessadas no que estava sendo mostrado ali, anotando em seus caderninhos para o trabalho de escola e discutindo entre si sobre como devia ser aquela época. Dava pra sentir a energia daquelas coisas antigas, que fazem a gente imaginar tudo o que já se passou nesse mundo antes de a gente existir.

Era hora de pegar o carrinho de volta. Voltei à loja e, para meu espanto, ainda levaria cerca de 2 horas a mais para ficar pronto. Isso me obrigou a seguir o passeio pelo bairro...

Vários quarteirões depois (debaixo do sol quente do meio-dia), me deparo com o Aquário de São Paulo. É simplesmente o maior aquário da América Latina, com cerca de 3 mil espécies de animais. Lá, encontra-se não só peixes, mas também cobras, jacarés, aves e até macacos! Alguns tanques são realmente grandes – como o do lobo marinho e do peixe-boi gigantesco que mora lá – e as crianças ficam absolutamente hipnotizadas com a performance dos animais, principalmente o tanque dos tubarões e raias. Curiosamente, lá também se encontram morcegos gigantes, pinguins, e até lontras, que oferecem um espetáculo de acrobacias.


Muitas horas de passeio depois, com as pernas já dormentes, retorno ao ponto inicial, tendo conhecido alguns dos principais pontos turísticos da cidade, praticamente sem querer. Um passeio incrível, sempre tão ao meu alcance e que nunca havia reservado um tempo para ir.

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Serviço
 
Museu de Zoologia da USP
Avenida Nazaré, 481 – Ipiranga
Ingressos: R$ 6,00
(11) 2065-8100

Museu Paulista
Parque da Independência, s/n – Ipiranga
Ingressos: R$ 6,00
(11) 6165-8000

Aquário de São Paulo
R. Huet Bacelar, 407 – Ipiranga
Ingressos: R$ 30,00 (adultos)
(11) 2273-5500

terça-feira, maio 31, 2011

Toque-me, sou teu

Dica: Ligue o som para uma melhor ambientação.

Era uma manhã ensolarada de sábado. Sozinha, estava a caminho da Rua José Paulino - paraíso de mulheres em busca de roupas bonitas e baratas - e, obviamente, de metrô. O trajeto incluía sair da Estação Conceição, cruzar as linhas verde e vermelha e chegar até a Estação da Luz.

Recém-chegada da Europa, tinha trazido o costume de prestar mais atenção à arquitetura dos lugares, principalmente de São Paulo: "também temos igrejas e construções maravilhosas", pensava, conferindo detalhes que até então passavam despercebidos. Por isso, ao chegar à Estação da Luz, fiquei maravilhada com aquela enorme estrutura de ferro, os vitrais, os detalhes no teto e nas paredes, os grandes portões de madeira de onde já se via o belo Parque da Luz...

Foi quando me chamou a atenção um piano, bem no meio do salão central da estação. Ele tinha várias mãozinhas adesivadas e um aviso: "toque-me, sou teu". Fiquei rodeando o piano, meio sem jeito, até que por fim resolvi arriscar um dedilhado. Sentei-me e, puxando do fundo da memória, comecei a tocar a Sinfonia nº 40 de Mozart (essa música que, se você ligou o som do computador e aceitou a dica ali de cima, está tocando agora).

Aos poucos, fui me deixando envolver na melodia, e a música foi fluindo como se adormecesse de uma memória antiga e, agora, ressurgisse com a força e emoção a que lhe eram devidas. Olhava para cima e para os lados, toda aquela arquitetura histórica, aquele marco da cidade de São Paulo, e eu ali, no meio de centenas de pessoas que iam e vinham... Até que um senhor parou para me escutar. "Que bonito, isso, menina", foi a única coisa que ele disse, e se manteve ali, me ouvindo, se deixando levar pelo mesmo som e, quem sabe, pela mesma emoção que me tomava naquele momento.

Queria ter uma câmera naquela hora, ou que um destes "cinegrafistas de celular" tivesse documentado essa passagem. Mas tudo bem, ficou bastante marcado na memória e, principalmente, no coração.

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O projeto "Toque-me, sou teu" está espalhado por diversos pontos da cidade de São Paulo.
Mais informações: www.pianosderua.com.br

domingo, fevereiro 27, 2011

O coração dos aflitos pipoca dentro do peito

A pessoa aqui anda um tanto quanto aflita. Mas, assim, parece que é algo da pessoa que QUER estar aflita, em que as próprias escolhas levam a isso. Parece meio óbvio, mas o fato é que, na grande maioria das vezes, poderíamos reduzir o estresse com o simples fato de nos cobrarmos menos.

Pra quê ir na academia antes da consulta médica antes da reunião de trabalho? E querer aproveitar cada 10 minutos de sobra pra providenciar alguma coisa qualquer, e o pior: ficar absolutamente indignada se as pessoas ao redor não pensam/agem da mesma forma. Como assim?? Você chegou em casa às 20h e não fez NADA? Nem uma compra no mercado, uma faxina, uma lista de "to-do's" para o dia seguinte?

Parece até engraçado… mas que cobrança doentia é essa, gente? E é por essas e outras que buscamos a ajuda da psicóloga: pra ela dar um tapa na cara que fica ardendo horas, às vezes dias, e faz com que a gente repense e mude algumas coisas. Ou pelo menos tente.

A última consulta foi a maior prova disso: cheguei esbaforida, respiração ofegante, porque o metrô estava lotado e eu tive que sair correndo pra não perder o horário e cheguei lá sem comer direito e engoli um copo d'água e outro de café e meu coração estava acelerado e minha vontade era de andar de um lado pro outro e…. EI!

Ela me fez sentar e respirar. "Mas o que você acha que está fazendo, apressada deste jeito?" Parei. Olhei ao meu redor: estávamos sozinhas. Duas poltronas, um pequeno armário com porta-retratos da família, um bebedouro. Só nós duas, uma de frente pra outra. E então, comecei a falar sobre minhas ânsias, essa vontade de sair correndo e abraçar o mundo, de atender a todas as expectativas internas e externas, de aproveitar cada 10 minutos sobrando…

"APROVEITAR? Quem disse que você está aproveitando?" Foi o que bastou para que eu me calasse. Não, eu não estava aproveitando meu tempo livre. E isso foi só o começo: ela também perguntou se eu vinha dormindo bem - cabisbaixa, assumi que não. E então questionou: quer envelhecer antes do tempo? Sem dormir nem comer direito, trabalhando da forma errada e em excesso, fazendo academia mesmo quando o corpo pede arrego… Pera lá! Não é isso que você quer pra sua vida, é? Cabelos brancos e rugas, antes do tempo?

Saí do consultório em direção à estação de metrô. Foram apenas 2 minutos respirando fundo e tentando caminhar, tomando conhecimento do que estava ao meu redor com tranqüilidade. A primeira olhada no relógio, e voltei a correr. Literalmente, corri até a estação, a voz dentro de mim voltava a gritar: "você está atrasada! Corre!"

Foi quando praticamente tropecei em um senhor, que se dirigia ao sentido Jabaquara do metrô. "Desculpa", falei rapidamente me desviando, quando percebi que se tratava de um senhor CEGO! "Ah meu Deus, me desculpe, o senhor está indo para o Jabaquara mesmo?" 

E ele estava indo para Corinthians-Itaquera. Ou seja, estava no lugar errado! Naquele momento, atrasada, optei por respirar e ajudar aquele homem. Peguei-o pelo braço, subimos a escada rolante e nos dirigimos ao outro lado da estação, onde estava a saída que ele precisaria pegar. 

A sensação de ajudar uma pessoa, naquele momento, encheu meu coração de paz. E eu percebi que estava, esse tempo todo, correndo atrás da felicidade. Mas a pressa era tanta que a felicidade estava correndo atrás de mim, e não me alcançava.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Pra não dizer que não falei das flores




Nesta época do ano, as flores que moram em frente à minha casa nascem e morrem todos os dias. Quando saio, de manhãzinha, elas estão nascendo, ainda tímidas e entreabertas. Na hora do almoço, abrem-se pra tomar o melhor sol do verão, enchendo de cor e alegria o jardim da frente. Já quando volto, à noite, elas estão murchinhas, desanimadas, como se tivessem se cansado de oferecer tanto brilho ao dia. E então caem ao solo, exaustas. No dia seguinte, de manhã, o processo se reinicia.

Parece que me sinto mais forte sempre que as vejo, de manhã. Porque no fim do dia, assim como eu, elas estão acabadas. Parecem querer desistir da vida, caindo mortas ao chão. Mas não. A energia que corre por ali dá forças o suficiente para que elas acordem no dia seguinte, tão lindas como de costume, e se abram pra vida com a força de quem renasce a cada nascer do sol.

2010 nasceu, abriu-se para a vida, murchou e morreu. E suas pétalas serviram de adubo pra terra de onde brotou 2011, este que nasce com o vigor habitual dos anos-novos, com vontade de brilhar ao sol, irradiar alegria e dar mais colorido à vida.

As flores que moram em frente à minha casa nascem e morrem todos os dias. E me sinto mais forte toda vez que olho para elas, qualquer que seja o seu estágio. Porque respeito estas fases, porque sofro com as suas mortes diárias, e principalmente porque admiro sua força de renascer no dia seguinte.

Que 2011 seja um ano de diários e renovadores recomeços.

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Uma tarde com os avós mais divertidos do mundo

Quando voltaram à igreja em que se casaram, 50 anos depois.

Meus avós, modéstia à parte, são duas das pessoas mais incríveis que já conheci. Casados há 58 anos - ele com 83, ela com 79 - eles mantêm alguns costumes fofos, como deixar bilhetes carinhosos ou tecer elogios um ao outro na frente das pessoas.

Mas não é por isso que resolvi escrever sobre eles. É que, recentemente, estava pensando no quanto era divertido visitar meus avós quando era pequena. Pra falar a verdade, me sentia em uma gincana: quando chegávamos, um dos dois jogava um saquinho de supermercado com a chave dentro, pra que não precisassem descer pra abrir. Se era a chave da minha avó, ela logo orientava: "o portão de fora, você abre com a chave amarela de ponta-cabeça, e a porta de dentro é a chave preta!"

Já se fosse meu avô a jogar a chave, já vinha acompanhada de sua voz grossa: "filha, abra com a verde de ponta-cabeça, e a porta de dentro com a chave branca!" Achava o máximo ter que caçar a chave amarela ou a verde e colocá-la de ponta-cabeça, ainda que já soubesse de cor qual a orientação para cada chave, sua cor e posição.

Sempre tinha um lanchinho gostoso. Não teve uma só vez que eu chegasse lá e não tivesse meia dúzia de sonhos de padaria me esperando, fresquinhos, acompanhados de um suco de laranja com manga - uma das muitas especialidades de meu avô (juntamente com o pão de cabaré, o kibe cru e tantas outras delícias). Minha avó logo me chamava para irmos à varanda, ver os carros passarem, e brincávamos de contar quantos carros passavam de cada cor: cada um escolhia uma cor e ia contando, um a um, pra ver quem ganhava.

Depois meu avô vinha com a lista das personagens da rua Major Sertório. É que todo dia, no mesmo horário, eles costumavam ficar na varanda observando as pessoas e, como as mesmas pessoas passavam todos os dias (para seus compromissos diários), eles passaram a apelidar uma a uma, criando uma lista com mais de 50 nomes, um mais engraçado que o outro.

"Veja quem está vindo! É o Paulo Coelho mais gordo!" E lá vinha ele, um cara igualzinho ao Paulo Coelho, só que, claro, mais gordo. E passava a Xica da Silva com o filho, o Antonio Banderas dos pobres... e eu ria longamente, gargalhava alto, tão alto que às vezes alguém parava na rua e olhava pra cima, tentando entender do que tanto riam aquele casal de senhores e aquela menina.

E sabe o que é mais legal? Tudo isso aí acima acontece até hoje, toda vez que vou à casa de meus avós.
 

segunda-feira, novembro 22, 2010

Paul McCartney - Up and coming tour - eu fui!

Isqueiros ao alto para Let it be

Quando soube que o Paul viria fazer shows no Brasil, passei a usar a frase padrão para qualquer pessoa que perguntasse se eu iria: “nem que eu tenha que vender minhas calcinhas!” Baixarias à parte, fiz questão de acompanhar, ao lado de meu pai, as novidades sobre compra de ingressos e toda essa “burocracia protecionista” que temos por aqui. Começou a tentativa naquela madrugada em que teoricamente os ingressos começariam a ser vendidos para os reles mortais que não tinham conta no banco específico X. Meia-noite-e-um: nada feito, só a partir das 8h.

Dia seguinte, 7h da matina, voltamos pro computador em busca de um lugar ao sol naquela disputada noite no Morumbi. Nos primeiros 10 minutos, já não conseguimos comprar a arquibancada vermelha, que era a nossa primeira opção. Tentamos a azul, dessa vez com sucesso.

A partir de então, passamos a contar os dias para o tão esperado show do Paul. Já preparando as pernas para a maratona Planeta Terra no sábado + Paul no domingo; e preparando o coração para os momentos que estariam por vir.

Domingo, 21 de novembro. Pernas moídas de ficar em pé no dia anterior e corpo dolorido dos brinquedos do Playcenter, já começamos a pensar no caos que estaria na região do Morumbi. Por ir com meu pai, tinha a preocupação de que fosse um lugar confortável, que desse para ver bem o palco, mas ao mesmo tempo não me dispus a chegar com tantas horas de antecedência. Logo, já estava contando que não seria um lugar tão bom.

E não é que por fim, deu tudo certo? Meu irmão tirou da cartola um amigo que mora ao lado do Estádio – literalmente o anjo Gabriel – e paramos tranquilamente em sua casa. Pegamos fila, mas uma fila que andava sem parar, e em menos de 15 minutos já adentrávamos o palco de tantas glórias do meu tricolor, agora por outra boa causa.

De cara já comecei a perceber as vantagens de ter comprado na arquibancada: sentamos tranquilamente, com uma boa vista do palco, guardamos lugar para os amigos que chegariam em breve... Meu pai, emocionado, me olhou: “parece que agora é que está caindo a ficha!” Porque, numa boa: se para mim era uma emoção enorme só de pensar em ver o Paul ao vivo, imagina ele, que nasceu em 1960?

Marcado para as 21h30, Sir Paul deu início ao ritual às 21h35. E, a partir de então, a emoção ultrapassou qualquer limite do bom senso. Todos estavam tomados por uma só energia – era só olhar para o lado e ver os olhos cheios d´agua e as vozes embargadas cantando todas as letras – e Paul conseguiu ganhar ainda mais moral com cada um dos presentes.

A cada música cantada, a cada homenagem feita – a John, George, Linda e “a todos os namorados” – eu imaginava os momentos na vida de Paul em que aquelas letras tinham sido escritas. A cada acorde inicial, meu pai levava as mãos à cabeça, emocionado, extasiado.

Chorei feito criança em My Love, Yesterday, And I Love Her e Something. Pulei feito criança em Ob-la-di-Ob-la-da, Back In USSR e Helter Skelter. Gritei feito louca em Get Back, Day Tripper e Hey Jude (ah, como já caçoei desse coro de Na-Nana-Nanananaaa, falando que ele não se cansava nunca de fazer isso).

Fica difícil pontuar os melhores momentos de um show como este, mas, sem dúvida, dois momentos marcantes foram Live and Let Die, em que fomos surpreendidos por uma queima de fogos digna das melhores comemorações; e em Give Peace a Chance, em que foram lançados balões brancos que tomaram a pista do Morumbi, imagem inesquecível para quem via das arquibancadas, e coroada por uma lua cheia maravilhosa.

Saí de lá com a certeza de ter ido ao melhor show da minha vida. Certeza, na verdade, com a qual já havia entrado no estádio, e que só se confirmou. Resta, agora, agradecer a Sir Paul por ser esse querido, simpático, carismático, que encheu o coração de todas aquelas 64 mil pessoas durante quase três horas. Ah sim, e agradecer também ao meu pai, afinal, ele é o maior responsável pelo meu amor ao rock.

Paul se despediu com um “até logo”. Acho difícil, mas ainda assim espero. Por ele? Vale a pena.

segunda-feira, agosto 09, 2010

Só pra dizer que tenho muitas, muitas saudades de escrever por aqui. Andei fuçando nos posts antigos, nas fotos, desabafos... acho que estava esquecendo do prazer de escrever! Será que estou me acostumando/condicionando à vida de 140 caracteres? Bóra parar com isso?

Prometo voltar em breve e tirar a teia de aranha desse espaço querido. Prometo!

quarta-feira, março 24, 2010

Da série: dê uma carona e aprenda uma lição.

Dona Dalva estava na Av. Jornalista Roberto Marinho e, corajosa, resolveu aceitar minha carona na manhã de hoje até a Av. Santo Amaro. Mora na favela ao lado do córrego, ali do lado, e não tem a menor vergonha de dizer que mora num barraco. “Lá é tão tranqüilo, sabe, filha”, dizia ela, com os cabelos pintados de vermelho e as unhas compridas, bem feitas em marrom-cintilante, calça xadrez bem apertada que em nada combinava com a blusa estampada. Mas é claro que ela não estava se importando com isso.

Nasceu na Paraíba, em uma cidade cujo nome não consegui guardar. Seus pais, “ciganos”, já haviam passado anteriormente por várias cidades do Brasil e, segundo ela, “em cada uma paravam e faziam um filho”. Pois bem, dessa brincadeira vieram 21 filhos do mesmo pai e mesma mãe, “fora os que o pai fez por fora”, contou. Após o nascimento de Dalva, resolveram vir para São Paulo, onde se estabeleceram e vieram a falecer anos depois.

Dalva tem três filhos homens e um neto. Sonhava em ter uma menina, mas não teve esta sorte. Moram todos em barracos num mesmo bloco, mas fez questão de ressaltar que “cada um tem a sua cozinha e seu banheiro”. O neto, de 10 anos, não gosta muito dos pais, pois foi criado por ela. Por isso, prefere morar com a avó no barraco de baixo, enquanto os pais moram no barraco logo em cima. “Tipo sobrado, sabe?”, explicou.

A senhora fez questão de que eu anotasse seu telefone. “Me liga, gostei muito do seu jeito”, falou sorrindo mais de uma vez. Dalva completa 60 anos em 9 de setembro e estava indo até Santo Amaro para pagar uma conta. Não tem mais esperança de arrumar trabalho com esta idade, pois, segundo ela, “não dá mais lucro pra ninguém nessa altura da vida”.

Apesar das dificuldades, ela não perde o bom humor. Adorou a ideia de ir de carro até seu destino, falou alegremente e sem parar durante o trânsito caótico que pegamos ao longo da avenida, e saiu do carro gritando: “tchau, me liga! Carona é tudo de bom!”

Carona é tudo de bom. =)

sexta-feira, janeiro 15, 2010

Sentaram na areia da praia, ainda fria e úmida naquela manhã, a olhar o mar. Aquela imensidão, de certa forma, os aproximava de Deus. “Como pode ser tão grandioso?” ela pensava, enquanto lágrimas rolavam pelo seu rosto. Não precisavam falar nada: sua ligação era forte o suficiente para que ambos soubessem o que se passava e começassem a se preparar para como seriam as coisas dali pra frente. Nenhum dos dois conseguia entender o porquê, mas de certa forma tinham maturidade suficiente para respirar fundo e não perecer diante daquela situação tão difícil. Ambos a olhar o mar, como se este simbolizasse a imensidão e o mistério do futuro que os esperava.

Então, ela levantou-se e saiu caminhando. O sol começava a nascer e sua silhueta ficava marcada pelos primeiros raios do dia. Ele manteve-se ali, a admirar seu futuro, lágrimas brotando sem controle, enquanto ela partia sem saber pra onde. No coração de cada um, o carinho e respeito se mantinham vivos, como algo que já morasse ali tempo suficiente e com força o bastante para ser eterno. “Que seja eterno”, suspiraram.

O que esperava por eles? Ninguém saberia.

domingo, dezembro 20, 2009

É o tempo da travessia


Barra Grande, Janeiro de 2006 . ₢ PH Schneider

Sempre que busco solução pra qualquer problema que seja, recebo uma luz. Seja uma música que serve como uma porrada na cara, seja uma frase vinda aleatoriamente pelas ruas ou um conselho da faxineira que nunca havia visto antes... Hoje, entretanto, isso aconteceu de outra forma: através de textos de dois dos meus escritores preferidos. Um deles, lembrei de uma postagem antiga deste mesmo blog; a outra, apareceu repentinamente colada no mural da cozinha de casa, como um bilhete do anjo da guarda que sussurra que "tudo dará certo!"

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente"
Carlos Drummond de Andrade

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas,
que já têm a forma do nosso corpo,
e esquecer os nossos caminhos,
que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia:
e, se não ousarmos fazê-la,
teremos ficado, para sempre,
à margem de nós mesmos.
Fernando Pessoa

sábado, dezembro 19, 2009

Sobre como a gente se lasca, mas se diverte - uma quinta-feira difícil

07h30 - ligo para o Jone no horário combinado, nosso vôo sairia em 1 hora. Descubro que acabo de o acordar e, um pouco preocupada, faço o check-in para ambos. Afinal, o moço mora nos Jardins.
08h20 - Jone salta do táxi a la Daiane dos Santos e esquece de pedir a notinha. Dá um duplo carpado e sai no brasileirinho, ao meu encontro.
08h30 - partimos rumo ao Galeão, repassamos a pauta durante o vôo e desembarcamos, lindos, num sol de 29º.
11h00 - um pouco de trânsito e chegamos ao cliente. Ainda com o pensamento positivo, concluo que se é pra pegar trânsito, que seja olhando o mar. Jone reclama que sua pedra nos rins não para de caminhar por dentro dele, e combinamos de virar estrela na praia de sapato, pra fotografar e enviar pros amiguinhos.
11h10 - somos recebidos sem água e com um café ruim. Não havia sala reservada, por isso fizemos a reunião em uma sala em reforma, suja e com o chão grudento. Modéstia à parte, arrasamos na apresentação.
13h00 - pegamos um táxi rumo à Confeitaria Colombo, centro do Rio. O taxista - de que planeta ele veio?? - não sabia do que se tratava o lugar, e ligou para um colega - gente, da onde é esse povo? - que brilhantemente informou: "a Colombo do Centro fechou". Meu amigo, ela existe desde 1800, vai fechar agora que estamos aqui? "É, agora, só no Forte de Copacabana." Trânsito e mais trânsito, durante todo o percurso. 
14h30 - descobrimos que a Colombo não havia fechado e que o taxista realmente estava mal informado. Pagamos para entrar no Forte de Copacabana e ter acesso à Colombo falsa. "Não chega nem aos pés da oficial", diz Jone, reclamando sem parar até a chegada da clássica coxinha.
16h00 - muito, muito trânsito e ameaça de chuva. Tentamos mudar nossa passagem para o Santos Dumont, e a atendente informa que a multa ficaria em R$ 600,00. Claro, vamos de trânsito mesmo.
18h00 - chegamos ao Galeão, finalmente. O vôo atrasa e as únicas 4 tomadas disponíveis estão ocupadas. Acaba a bateria do notebook. Ótimo!
19h00 - adentramos o vôo e, repentinamente, começa a chover. Não uma chuva qualquer, mas aquelas com rajadas de vento... as escadas com rodinhas embaixo que ficam nas pistas dos aeroportos começam a voar e bater no avião. Enviamos mensagens de despedida aos entes queridos.
20h00 - nada do avião subir. Passamos a ler atentamente as instruções do cartão que se encontra bem em frente ao nosso assento, e damos risada das instruções de não pular no fogo, nem nos destroços.
20h10 - finalmente levantamos vôo. A chuva aparentemente sossegou.
20h30 - entramos numa área de turbulência. No início, fiquei admirando os raios que caíam ao lado da aeronave, mas logo em seguida veio a sensação de pânico com o tanto que chacoalhava tudo aquilo. Jone utiliza o cordão do saquinho de vômito e amarra seu RG ao blazer, na esperança de ser identificado.
22h00 - o comandante piadista anuncia: "pessoal, embananou tudo no ar. Congonhas está fechado por causa da chuva, e todo mundo foi pra Guarulhos. Estamos com pouco combustível... mas vou administrando aqui e em breve aviso vocês". Ótimo! Agora é o momento de ligar para os parentes e se despedir, certo?
22h40 - novamente o comandante - ele devia investir no humor! - anuncia: "pessoal, acho que vocês vão me matar quando chegarmos no solo. Teremos que pousar em Campinas, ok? Mas pensem pelo lado positivo: se tivéssemos que voltar pro Galeão, pegaríamos aquela tempestade toooda de novo". Que boa notícia!
23h00 - descemos em Campinas e descobrimos que nenhum dos hotéis da cidade tem vagas. Aguardamos por mais 1h15 até que chegasse o segundo ônibus da Gol para nos levar a Congonhas.
00h15 - quem diria, pegando a estrada a essa hora. Relembramos a odisséia do dia todo, rindo sem parar da própria desgraça, e concluímos que tratava-se na verdade de uma gincana, um verdadeiro teste de paciência.
1h30 - sã, salva e em casa. Sobrevivemos à gincana. Pergunta se eu consegui dormir depois de tudo isso?

Agora, imagina como estou ótema hoje =)

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Heineken Experience - Amsterdam

"Nós não somos o museu da Heineken, nós somos a Heineken Experience". É assim que se apresenta este museu interativo que funciona na antiga fábrica da cervejaria em Amsterdam. A estrutura permite uma verdadeira imersão no conceito e na história da Heineken, desde quando era uma cervejaria regional, até a padronização mundial das garrafas e o famoso patrocínio a eventos esportivos (há um espaço enorme sobre isso).

Lá, é possível “ser a cerveja”, uma projeção que te coloca no lugar de uma garrafa e mostra todo o trajeto que a bebida percorre, da fermentação ao engarrafamento. Além disso, é oferecida uma degustação orientada, em que te ensinam a ouvir, ver e sentir a cerveja, e você pode criar um rótulo personalizado com seu nome para a famosa garrafa verde.



Descobri, também, que os “es” de Heineken estão levemente curvados, sorrindo subliminarmente (como não havia percebido antes?), fiz um vídeo hilário cantando uma música tradicional holandesa e ainda pude assistir a todas as propagandas da Heineken, separadas por ano (foto acima)

Passando por Amsterdam, vale muito a pena conhecer!
Mais informações aqui.

domingo, novembro 29, 2009

Manaus 2009

O grupo animado aguardava o embarque no Aeroporto de Guarulhos. A maioria já se conhecia. Eu, no caso, não conhecia ninguém, com exceção das pessoas que me acompanhavam. Engraçado pensar que naquela hora, pessoas que se tornaram tão queridas eram apenas alguns dos integrantes da turma.

Três horas e meia de vôo depois, desembarcamos no aeroporto de Manaus. O bafo quente que aquele lugar possui é algo que jamais vou conseguir descrever por aqui, um calor e umidade incomparáveis. Mas a sensação não durou muito: logo entramos no ônibus com ar condicionado e com uma guia muito simpática de nome Isa, que foi nos explicando um pouco do que nos esperava.

Contou que o hotel ficava num canal, lá chamado de Igarapé, e que nesta época da seca era preciso pegar um barco menor pra chegar até lá. As chuvas duram de maio a setembro, mais ou menos, e nesta época o rio Amazonas chega a subir mais de 13 metros. O hotel, no caso, sobe junto.

Do ônibus, passamos para um barco bastante confortável, dentro do qual comemos, bebemos e escutamos um pouco sobre Manaus e sua história. O guia, cujo nome esqueci mas que falava muito, muito, muito, contou que o primeiro nome de Manaus foi São José da Barra mas que, devido à presença dos índios Manaós na região, a cidade passou a se chamar Manaus em 1669.

Pouco mais de uma hora neste barco, e finalmente avistamos o hotel Amazon Jungle Palace. Os funcionários guiaram cada pessoa à sua suíte, e nos preparamos para um almoço delicioso, oferecido por um chef paulista do qual também não me recordo o nome. Todos os dias, muitas opções de saladas, carne, frango e, como não poderia deixar de ser, peixes de várias espécies e feitos de diversas formas.

A primeira noite foi dedicada à focagem de jacarés. Saímos em canoas pelo meio da escuridão, cada uma com um guia na frente, possuindo uma grande lanterna ou holofote. Os olhos dos jacarés brilham à noite, e não era difícil avistar aqueles pequenos pontos brilhantes por causa do escuro. Confesso que fiquei com um pouco de medo, menos dos jacarés em si, mas principalmente de surgir alguma coisa do rio em meio à escuridão. Como os peixes-voadores, por exemplo, que davam cada susto nas pessoas que a guia falava: gente, cuidado! Senão vai ser peixe pra dentro e vocês pra água! Enfim, sobrevivemos, após conhecer mais de perto um jacaré filhote.

Na manhã seguinte, fizemos a caminhada na mata, saindo às 7h da matina (pode acreditar: já estava muito quente). Foram quase duas horas de mata fechada, explorando árvores, flores, frutas e insetos e, é claro, tomando o maior cuidado com os espinhos e possíveis animais nocivos dali. Isa nos mostrou o breu branco e  breu preto, árvores cuja seiva é altamente inflamável, usada pelos índios pra fazer o fogo e aquecer a chamada maloca. Mostrou também uma outra árvore, da qual não lembro o nome, usada para comunicação entre os índios. Quando se bate nela com um pedaço de pau, faz um barulho alto, que ecoa pela floresta. Assim, os índios podem chamar os outros quando pegaram uma caça ou se há alguém ferido. Lindas paisagens, mas acho que nunca suei tanto na vida.

Isa explicando um pouco mais sobre o breu preto:


De tarde foi a vez da visita à comunidade indígena que habita as regiões próximas. Atravessamos literalmente a ponte do rio que cai (feita totalmente de madeira), e a sensação que tive era de que estava descobrindo o Brasil. Lindas indiazinhas foram nos receber, correndo pela areia branca por entre as árvores e levando o grupo para conhecer seus parentes. Todos nos acomodamos na sauna natural no interior da maloca cujo centro abrigava uma tocha feita com a seiva do breu, e assistimos às apresentações de algumas das belas danças indígenas. Cansados e felizes, voltamos ao hotel.

Sábado foi dia de partir rumo ao Encontro das Águas, um dos passeios mais famosos de Manaus. Seguimos por mais de duas horas naquele barco ultra-confortável, até chegar à junção entre os rios Negro (de água escura) e Solimões (que tem água barrenta). Por causa da densidade dos dois rios, as águas não se misturam, formando essa paisagem no mínimo curiosa. Durante o passeio, curiosamente, encostaram dois barcos em que homens traziam animais para tirarmos fotos: era um jacaré, um bicho-preguiça e duas cobras. Só depois de nos divertirmos muito, o guia explicou que eram ilegais, e que traficavam animais. Um verdadeiro balde de água fria (mas o bicho preguiça é a coisa mais linda do mundo)...

À noite, foi hora de assistir à apresentação do Guia ESPN do fã do esporte, um levantamento muito interessante sobre o perfil dos amantes do esporte no Brasil. Descobri coisas incríveis sobre o basquete, tênis, skate, surf, vôlei e, é claro, sobre o futebol. Dados como: 81% dos amantes do futebol prefere ver seu time ganhando do que a seleção brasileira (!). Informações no mínimo interessantes pra quem quer atingir ao público esportista de todo o Brasil, e ainda mais pra quem ama esportes.

Um churrasco na cobertura do hotel fechou a noite e a viagem. Um encontro fantástico, com muito sol, calor, batidas de coco deliciosas à beira da piscina, banhos noturnos nesta mesma piscina, natureza exuberante (mariposas, muitas!) e, o principal: levo deste encontro pessoas incríveis e lembranças que jamais vou esquecer.

Valeu, ESPN!

Nascer do sol, só boas lembranças...

segunda-feira, outubro 26, 2009

Flores! Flores!

Não tem como não começar a semana feliz, quando todas as plantas da sua casa resolvem florescer no mesmo dia!



Orquídea de Jardim - era uma mudinha tão pequena...



Amarílis - dois anos depois, renasceu.



Flor de Cera - vários pequenos e charmosos buquês

Uma excelente semana a todos!

sexta-feira, outubro 16, 2009

Hoje dei início ao Projeto Carona.

Desde que passei a vir pro trabalho de carro, passo pelos pontos de ônibus lembrando das muitas horas que perdi ali, em pé ou sentada, sujeita à chuva, ao frio, aos perigos dessa cidade (óóóin) e ainda correndo o risco de, ao passar, o veículo estar tão cheio que o motorista nem faz questão de parar, simplesmente vira pro outro lado e finge que não tem ninguém ali.


Ao reparar nos pontos de ônibus, outro dia, pensei: mas que egoísmo, eu sozinha neste carro, podendo levar mais 4 pessoas! E decidi que, quando tivesse coragem, pararia e perguntaria se alguém estaria indo para a região da Berrini. Claro que o medo também era grande, de entrar alguém mal intencionado, de acontecer alguma coisa...

Foi então que hoje cedo, ao passar devagarzinho por um ponto de ônibus, reparei que não tinha nenhuma pessoa com pinta de maldosa. Duas meninas, uma senhora e uma mulher. Encostei: "ALGUÉM VAI PRA BERRINI??" Elas me olharam muito assustadas, como se nunca ninguém tivesse oferecido uma carona a elas (no ponto de ônibus? É bem possível que não mesmo). A mulher, ainda um pouco receosa, disse que estava indo para aquela região sim, e entrou no carro.

Ficou com medo até de dizer seu próprio nome, mas eu compreendi. Ela me contou que nunca tinha visto isso antes na vida, e que eu estava correndo riscos ao fazer isso. Papo vai, papo vem, ela finalmente me contou que seu nome era Elza e que trabalhava bem ali, ao lado da delegacia. Ou seja: no mesmo prédio que eu! Veja só como são as coisas!

Desceu do carro agradecida, ainda sem entender muito bem o que tinha acontecido. Subi de elevador meio extasiada, rindo da loucura e da bondade que, na mesma proporção, tomaram conta de mim nesta manhã.

sábado, outubro 10, 2009

Chororô

Locais e situações que me emocionaram em 4 países diferentes, sem ordem cronológica, alfabética ou de grandeza.

Catedral de Notre Dame - Paris
Olhando de fora, ela é essa monstruosidade ao lado. Em estilo gótico, a igreja
foi construída em homenagem à mãe de Jesus - Notre Dame = Nossa Senhora - e me fez lembrar na hora do documentário "O equilibrista", em que Phillipe Petit se aventura atravessando estas duas torres aí (ao vivo parecem ainda mais altas). Mas o que realmente me impressionou foi o interior dela, sombrio e ladeado por enormes vitrais coloridos, contrastando com o fundo escuro. Lágrimas vieram instantaneamente e
compulsivamente. O cheiro e a energia daquele lugar são inexplicáveis, mas acredito que dê para ter uma ideia no vídeo abaixo.



Regina Spektor - Amsterdam
Paradiso é uma casa de shows e balada que ocupa as construções de uma antiga igreja em Amsterdam. Os donos mantiveram toda a estrutura e os vitrais, transformando apenas o altar em um palco que, durante as temporadas, recebe os mais diversos artistas. Tive a sorte de pegar dois shows neste lugar mágico que, por si só, já é um programa interessante; e mais sorte ainda de um deles ter sido o da Regina Spektor. A russa, que além de linda tem uma voz impecável, tocou, cantou, brincou com a platéia, falou besteira e me fez chorar várias vezes, como em "Laughing with" e "Fidelity":



Igreja ao lado da Kaiser-Willhelm-Gedächtniskirche
Esta igreja de nome tipicamente alemão - e impronunciável - é esta aí da foto. Ela foi semi-destruída na Segunda Guerra Mundial, e mantida assim, como uma forma de mostrar as atrocidades de que uma guerra é capaz. Foram celebradas algumas missas no local,
mas por falta de segurança pararam e houve uma reforma que procurou manter a estrutura antiga o mais fielmente possível. Para que se pudesse continuar celebrando missas ali, foi construído ao lado um 'caixote octogonal' (infelizmente não me lembro de ter visto o nome), com vitrais azuis e um jesus dourado que parece flutuar. Aquela atmosfera de dor e resignação, o silêncio, tudo isso me emocionou demais.



Arte de rua - parte II (ou Músico em Veneza)
Com o calor infernal que fazia em Veneza (apesar da brisa, as temperaturas certamente estava em torno de 40ºC), sentamos em frente à igreja Santa
Maria Gloriosa dei Frari, em Veneza, para descansar. Um senhor, aparentando seus 60 anos, tocava alguns clássicos do rock, acompanhado de um instrumento X amarrado ao seu pé. Resolvemos não entrar na igreja - até porque pagava-se 3 euros e dava para ver o interior através de uma janela grande - e ficamos ali, aproveitando a sombra e a boa música. Lembrando da família, já no final da viagem, e repassando tudo o que acontecera nos quase 30 dias anteriores, não contive a emoção mais uma vez.

Porque tem horas que a gente não consegue (nem precisa) se conter.

Fotos: Paulo Henrique Schneider