quinta-feira, agosto 30, 2007

Eu coração Gabo

"Ah, de volta a Macondo. Já estava com saudades." Foi o que senti ao começar a ler "A revoada", de Gabriel García Márquez. Como se estivesse visitando novamente uma daquelas cidadezinhas de Minas Gerais, que parecem paradas no tempo, mas que deixam uma sensação gostosa na gente quando se vai embora.

Publicado anteriormente no Brasil como "O enterro do diabo", o romance de estréia do escritor conta pela primeira vez a história de Macondo, povoado que ficou conhecido com "Cem anos de solidão", anos depois.

É a narrativa do enterro de um médico que chegara ao vilarejo vinte e cinco anos antes, e em cujos olhos "duros e amarelados" não se podia ver alma nem sentimento. O homem, que tinha hábitos estranhos, era odiado por todo o povo, com exceção do coronel - do qual não se diz o nome - que tem por ele compaixão e respeito.

São três narradores: o coronel, sua filha Isabel e seu neto, que, paralelamente à descrição da cena do enterro, contam um pouco de suas vidas e dos anos anteriores naquela cidade que parece parada no tempo. A utilização de linguagens e termos diferentes ajuda o leitor a não se perder entre as personagens, que se alternam na narrativa.

O que mais me encantou neste livro não foi a história em si, que inclusive, já demonstrava a vocação de García Márquez para tratar de personagens solitários. O mais incrível, pra mim, foi pensar que, aos 22 anos, Gabo já tinha a capacidade de encher seus leitores de prazer com descrições ricas em detalhes e composições de frases tão perfeitas:

Do menino:
"O calor é sufocante na sala fechada. Ouve-se o zumbido do sol nas ruas, nada mais. O ar é parado, concreto; tem-se a impressão de que se poderia cortá-lo com uma lâmina de aço. Na sala onde colocaram o cadáver sente-se a presença de baús, mas não os vejo em nenhuma parte. Há uma rede num canto, com um dos punhos presos no armador. Um forte cheiro de restos. E creio que as coisas arruinadas e quase desfeitas que nos rodeiam têm o aspecto das coisas que devem cheirar a restos, mesmo que tenham outro cheiro."

De Isabel:
"Por esse motivo também é que eu deveria ter deixado o menino em casa; para não comprometê-lo nessa confabulação que agora se encarniçará em torno de nós como o fez o doutor durante dez anos. O menino deveria permanecer à margem desse compromisso. Nem ao menos sabe por que está aqui, por que o trouxemos a este quarto cheio de escombros. Permanece silencioso, perplexo, como se esperasse que alguém lhe explicasse o significado de tudo isso; como se aguardasse, sentado, balançando as pernas e com as mãos apoiadas na cadeira, que alguém lhe decifre esse espantoso enigma. Quero ficar segura de que ninguém o fará; de que ninguém abrirá esta porta invisível que o impede de ir além do alcance dos seus sentidos. Várias vezes já me olhou e eu sei que me vê estranha, desconhecida, com este vestido fechado e este chapéu antigo que pus para não ser identificada nem mesmo pelos meus próprios pressentimentos."

Do Coronel:
"Poucos dias depois, ele voltaria para sempre da barbearia e se fecharia no quarto. Naquela última noite, porém, no corredor, uma das mais cálidas e densas de que me recordo, ele mostrou-se compreensivo como em poucas ocasiões. A única coisa que parecia viver em meio àquele imenso forno era o surdo revérbero dos grilos excitados pela sede da natureza, e a minúscula, insignificante e no entanto desmedida atividade do alecrim e do nardo, ardendo no centro da hora deserta. Ambos ficamos calados um instante, suando essa substância gorda e viscosa que não é suor mas a baba solta da matéria viva em decomposição."

E, novamente, de Isabel:
"- E como vai você com o negócio? - disse. Meme sorriu. Seu sorriso era triste e taciturno, como se não fosse o resultado de um sentimento atual, mas como se o tivesse guardado na gaveta e só tirasse nos momentos indispensáveis, mas usando-o sem qualquer propriedade, como se o uso pouco freqüente do sorriso lhe houvesse feito esquecer a maneira normal de utilizá-lo."

terça-feira, agosto 21, 2007

Magia azul


Partiram na Hilux de Marcelo rumo ao passeio que tanto esperavam. Iria custar-lhes um pouco caro, mas certamente valeria a pena. Além do mais, Marcelo e sua namorada Monique estavam para ter um bebê ("tá pra nascer o bacurizinho", disse o guia), e nada melhor do que ocupá-lo com bastante trabalho para que conseguisse arrecadar, durante a alta temporada, um pouco de dinheiro para sustentar seu primeiro filho com segurança.

O casal de São Paulo, que compunha o grupo, havia conhecido os companheiros Jobert e Galdino (de São Luiz), dois dias antes, durante um passeio pelas cachoeiras de São Romão e Prata, e já havia feito um outro passeio no dia anterior, à incrível cachoeira da Pedra Caída. Portanto, naquele terceiro dia, sentiam-se à vontade para conversar sobre os mais diversos assuntos.

Não se sabe como, nem quando, mas o engraçadíssimo Galdino de repente ficou sério e começou a falar de espiritismo. Disse que enxergava vultos, espíritos, e algumas vezes chegava a ter premonições. A garota, que também acreditava na existência de um plano espiritual, embarcou na conversa e passou a escutar com atenção cada aventura contada pelo maranhense.

De repente, o biólogo anunciou: "vejo uma pedra bem alta, com uma luz incidente, e um lindíssimo lago azul. Acima do lago, entre as pedras, vejo três entidades, são guardiões da floresta. Mas fiquem tranquilos, eles não precisam de oração, e são do bem."
Duas horas e meia depois, pararam o carro no limite da estrada de areia e desceram, para caminhar mais dois quilômetros rumo ao Encanto Azul - que prometia ser o mais belo entre os belos lugares para se conhecer na Chapada das Mesas. O sol forte castigava a pele, mas os ecoturistas sabiam que valeria a pena.

Os caminhos de areia seca e árvores baixas aos poucos foi tornando-se fechado, as árvores aumentaram de tamanho e a presença dos buritis anunciava a presença de água. "Estamos próximos", o grupo pensava. Que nada. Ainda teriam uma trilha por entre corredeiras de água, entre pedras e mata fechada, com direito a uma movimentação estranha que, segundo Marcelo, era um filhote de jacaré.

Desde o início da caminhada pela água, os viajantes sentiram uma energia muito forte, como se o lugar possuísse realmente algo místico. Sensação que explodiu de tão forte ao adentrarem, finalmente, o Encanto Azul. Corações acelerados e pernas misteriosamente tremendo.

O forte cheiro de amônia, proveniente da urina dos morcegos que habitam aquela caverna, dava um ar ainda mais selvagem ao local, praticamente intocado pelo homem. "Estamos na casa dos animais", a garota pensou, ao andar com cautela entre uma enorme teia de aranha.

A água, límpida e azul como jamais tinham visto, brilhava aos reflexos do sol do meio-dia. "É o momento mais bonito daqui, porque o sol bate direto", Marcelo avisou. Aos poucos, o grupo foi entrando na água, menos fria do que esperavam, e muito mais funda do que imaginavam. Cerca de 8 metros de profundidade, que puderam ver com o auxílio de máscaras de mergulho.

A energia presente no lugar fazia acreditar na presença das entidades. Era um misto de medo com encanto. Os peixes que nadavam pelo lago, os morcegos que se debatiam, e o grupo lá, sentindo todo o misticismo que aquele santuário da natureza estava a oferecer.

Foi quando Galdino avisou: "Lá estão eles!", e apontou para uma pedra. Eram as entidades. Ele atravessou o rio e foi até elas, como se conversasse com os espíritos. Marcelo, o guia, não tinha falado nada até então, mas anunciou que não gostava muito dessas coisas e preferiu sair da água. O casal de São Paulo preferiu fechar os olhos e fazer uma oração, e pediram proteção não só a eles mesmos, mas, principalmente, àquele lugar.

Foto: PH Schneider

segunda-feira, agosto 20, 2007

A dança da ema

Naquela tribo isolada, a vida em grupo seguia à risca a bênção da unidade. “A humanidade está caminhando para sua destruição”, dizia o mestre, “e a única forma de impedir isso é se unir em prol do bem comum”.

E as pessoas colaboravam umas com as outras, e sabiam que era a única forma de viver em harmonia. Cada um fazia um pouco. A todo o momento alguém se propunha a ajudar com a comida, com a limpeza do local ou com belíssimas apresentações artísticas que entretinham a tribo.

Logo se via que a vida caminhava naturalmente sem a necessidade de conflitos ou leis. Eram como membros de uma só família, cientes de suas obrigações.

À noite, embalados pelas batidas de seus tambores, os índios experimentavam a sensação do transe coletivo. Dançavam ao redor da fogueira, sob o efeito de chás alucinógenos, cantando e incorporando a energia da natureza que adentrava seus corpos.

Até agora não acredito no que vi, preciso de testemunhas confiáveis.

quarta-feira, agosto 15, 2007

Scorpions

Há coisas na vida que têm que acontecer, o tal do destino. Pois bem, a minha ida ao show da banda alemã Scorpions, na noite de ontem, é o que se pode chamar de acaso do destino. Porque primeiro eu ia, depois não ia mais por falta de dinheiro. Aí fiquei triste, depois me conformei. E, sem saber de tudo isso, o amigo Elcio resolveu me presentear com um ingresso.

Como fui de trem, não peguei todo o trânsito que pude acompanhar da calçada, centenas de carros que se amontoavam em meio a cambistas e flanelinhas. "Não há mais vagas no Credicard", era o que diziam, e eu só conseguia pensar no meu pai, que iria de carro.

Eram 21h30 quando liguei pra ele, com medo de encontrar do outro lado da linha uma pessoa irritada e exausta de tanto esperar. "Hoje tem que ser especial, não pode dar problema", eu pensava. E ele não conseguiu parar o carro no estacionamento, droga. Mas estava tranqüilo, pois naquele momento estacionava o carro no Multipark ao lado e chegaria em 10 minutos. Durante estes torturantes segundos, mantive-me na fila para entrada na pista, que já acumulava mais de cem pessoas. E, quando estava prestes a chegar à entrada, ele apareceu. Ah, o destino.

A pista do Credicard Hall, que comporta 7 mil pessoas, estava em sua lotação máxima, e o público era o mais variado. Tiozinhos com esposa e filhos se apertavam entre jovens cabeludos e maquiados, ao lado de mulheres com salto agulha e perfumes adocicados que renderam uma bela dor de cabeça ao Elcio.

O show atrasou mais de meia hora, tendo começado por volta das 22h10, e de cara constatei que os cinco integrantes do grupo estão em plena forma. Física também, mas, principalmente, conservam as principais características que têm rendido décadas de sucesso à banda.

Confesso que não conhecia nenhuma das músicas do último álbum, “Humanity Hour 1”. Fiz questão de conhecê-las ao vivo, porque sabia que eles iam alterná-las aos grandes sucessos, e a idéia era ver se os alemães conseguiam manter o alto nível de suas canções. Talvez tenha subestimado os veteranos.

Cada um com um papel fundamental na apresentação, os integrantes
Klaus Meine (vocal), Rudolf Schenker (guitarra), Matthias Jabs (guitarra), James Kottak (bateria) e Pawel Maciwoda (baixo) demonstraram extremo profissionalismo e muita presença de palco. A todo o momento, um dos instrumentos se destacava na música, dando espaço para a realização de solos incríveis.

Destaque para o solo de bateria que Kottak realizou durante uma pequena pausa para descanso. Brincou com a platéia, subiu na bateria, gritou, vestiu uma camiseta do Brasil e cuspiu água pra cima, performances típicas de um astro do rock.

Das canções que conhecia, “The zoo” foi a primeira a ser tocada (e não saiu da minha cabeça até agora). “Send me an Angel” foi tão linda que me fez chorar (ok, eu sei que não precisa muito pra me fazer chorar, mas que foi emocionante, foi), seguida por outros dois clássicos: em “Always somewhere”, Klaus Meine mostrou toda a sua potência vocal, da qual eu cheguei a duvidar, dias antes; com “Holiday”, relembrei um célebre momento do DVD “Acoustica”, gravado em Lisboa em 2001.

E seguiram assim, entre canções novas – como “321”, pop-rock que promete ser um grande sucesso do disco novo – e antigas, como “Blackout”, do bem sucedido disco homônimo de 1982.

Ovacionados, agradeciam muito e o tempo todo, até saírem para dar uma respirada antes do bis. E respira fundo, porque o bis vem com nada mais, nada menos do que os três maiores clássicos do grupo.

“Still loving you” foi a primeira – e essa eu assisti de mãos dadas com meu pai, porque ele gosta muito dessa música e eu, de ir a shows com ele. Na seqüência, “Wind of Change”, como não poderia deixar de ser. E o cara assobia mesmo (eu nunca consegui assobiar tão agudo)!

Nem preciso dizer que me esbaldei ao som de “Hurricane”. Senti-me na década de 80, pulando ao som de “here I am/rock you like a hurricane”!

Mais aplausos, gritos, e o grupo se despediu. Algumas pessoas já iam embora quando os integrantes se entreolharam e fizeram sinais do tipo: “Mais uma? Mais uma?” E soaram os primeiros acordes de “When the smoke is going down”.

Achei até que a gente tinha ganhado de brinde essa última música, mas não. Estava tudo programado. E eu sei porque meu pai conseguiu pegar a folhinha com o set list. Aquela, que fica no chão para os músicos não se perderem. Show com meu pai agora é assim, a gente só sai com algum souvenir.

Foto: Alexandre Schneider/UOL

segunda-feira, agosto 13, 2007

É tudo Brasil

Pra quem assistiu Yamandu Costa se apresentando sozinho, depois ao lado do violonista Alessandro Penezzi, depois com o bandolinista Hamilton de Holanda (vide post anterior), foi uma surpresa vê-lo ao lado do mestre da sanfona no Brasil, o pernambucano Dominguinhos.

Isso porque, nas apresentações anteriores, o gaúcho Yamandu dominava o palco e o público, com dedilhados ultra-rápidos e sua forma agressiva de tocar o violão. Era sempre ele quem dava o tom, quem puxava as canções, e seus parceiros anteriores corriam para alcancá-lo, em performances que Irineu Franco Perpétuo definiu sabiamente na Folha como uma "corrida de Fórmula 1". Pois bem, só que dessa vez o parceiro tem 66 anos e sua experiência como sanfoneiro lhe imprime uma personalidade que impõe respeito.

O show de sábado, no Auditório do Ibirapuera, mostrou de certa forma uma hierarquia na música instrumental. O garoto Yamandu, que com seus 27 anos demonstra um controle total das sete cordas de seu instrumento, apresentou-se de forma mais serena e contida, mas igualmente bela. Foi Dominguinhos quem deu o tom, e Yamandu acompanhava, admirando-o como um garoto que de repente tem a oportunidade de se apresentar com seu ídolo.

A apresentação foi cercada de surpresas. Parecia que estávamos em um barzinho, vendo dois ícones da música instrumental conversarem e interagirem de forma harmônica. Em um determinado momento do show, Dominguinhos instigou Yamandu a cantar. "Esse menino tem uma voz belíssima", disse, e pela primeira vez tive a oportunidade de ouvi-lo. Afinado, o menino, que cantou "Negrinho do Pastoreio" e arrepiou até os mais insensíveis.

Dominguinhos respondeu, cantando "Forró no Escuro" (o candeeiro se apagou/o sanfoneiro cochilou/a sanfona não parou/e o forró continuou), de Luiz Gonzaga, com direito a backing vocal de Yamandu. E contou histórias de quando tocava com Gilberto Gil, a sanfona pesando treze quilos, ele em pé e Gil "simplesmente não parava de cantar!" O carisma em pessoa.

Ambos estavam muito à vontade, e improvisavam a todo tempo. Um ponto alto foi quando Dominguinhos resolveu ensinar ao público a diferença entre os sanfoneiros do nordeste e do sul do país, exemplificando com belos acordes e mostrando porque é considerado o sanfoneiro mais criativo do país.

Além das surpresas, o público teve a oportunidade de assistir às canções do álbum Yamandu + Dominguinhos, lançado em abril deste ano pela Biscoito Fino ("Biscoito Caro", segundo a dupla, que criticou a gravadora). "Wave", "João e Maria" e o pout-pourri "Asa Branca" + "Prenda minha" foram apenas algumas das demonstrações da integração entre estes dois talentos.

Com uma bela luz amarela vinda das laterais, e iluminação azul vinda de cima, somadas a um cenário lindo - panos coloridos lembravam as festas de São João - a dupla terminou o show de forma apoteótica, com "Tico-tico no fubá".

As apresentações aconteceram na última sexta, sábado e domingo, para gravação de um DVD. Quem viu, viu, quem não viu, vai ter que comprar o DVD quando sair. Se não quiser esperar, pode assistir no Youtube, em qualidade menor. Memorável.

quinta-feira, agosto 09, 2007

O casal mais animado de Carolina

Tocamos a campainha e fomos atendidos por uma simpática mulher de nome Joana D'Arc, que nos levou pra dentro do restaurante, bem decorado com almofadas coloridas e cortinas de penduricalhos.

Em seguida, veio o "Seu Rai" (pronuncia-se rái), dono do estabelecimento, um senhor com a pele queimada do sol e a postura de quem já foi da marinha em Santos. Morou em São Luiz e depois acabou caindo na pequena cidade de Carolina, sul do Maranhão. O motivo? Clonagem de documentação de sua antiga papelaria, e consequente ruína dos negócios.

Ele e a esposa, a Dona "de Jesus", deixaram os filhos já crescidos em São Luiz e buscaram seu sossego em Carolina. Para ocupar o tempo, "de Jesus" resolveu cozinhar sob encomenda, e em poucos meses transformou seu passatempo no restaurante mais gostoso da cidade: Ponto Alternativo.

"A gente só faz com pedido antecipado", disse Rai, "mas vou ver com a minha esposa o que temos aqui". Muito hospitaleiro, serviu-nos como cortesia azeitonas e palmito, cortado em aperitivo. Nada mal para um casal faminto que acabara de chegar de viagem. Nada mal MESMO, ainda mais com uma cervejinha bem gelada acompanhando.

"De Jesus" apareceu, a touca protegendo os cabelos. "Domingo é o dia que faço mais comida por aqui, e só tenho 'no jeito' um carneiro ao leite de coco com arroz e salada, pode ser?" Era o cordeiro de dona "de Jesus" ou arriscar-se a não encontrar nada melhor pra comer.

Minutos depois, chega ela com uma travessa gigante, espécie de moqueca de carneiro, um caldo saboroso com um toque sutil de coco. Nunca comi carne tão macia e saborosa na vida (ao preço simbólico de R$ 15,00 o prato).

Cumprimos a promessa de retornar no dia seguinte para experimentar o strogonoff, e encontramos o casal muito animado: seus filhos iriam visitá-los naquele final de semana. Tentamos encaixá-los no passeio que faríamos em seguida, pensando que eram dois ou três, mas dona "de Jesus" já avisou: "eles vão ter que fazer um passeio só eles, são seis!"

Na última noite, fomos comer espetinho na praça, e encontramos seu Rai e dona "de Jesus" animadíssimos com os filhos, bebendo cerveja e dando risada. Isso porque trabalharam o dia inteiro à frente do restaurante, e detalhe: já tinham saído pra balada no dia anterior ("dançamos até as 4 da manhã!"). Haja pique!

segunda-feira, agosto 06, 2007

Porque eu sou leonina

... e me envaidece o fato de estar cercada por tantos amigos no dia do meu aniversário. Uma pausa comemorativa em meio aos relatos de viagem.





Nem era pra ser tanto assim. Foi só um e-mail, um anúncio no nick do MSN. Uma reuniãozinha, pra não passar em branco, que acabou se transformando em uma das noites mais especiais de todos os tempos.

Eram amigos de toda parte. As meninas da Terroir, gente! Fizemos as contas: mais de um ano e meio sem nos vermos. E meu ex-chefe estava lá, e foi legal ouvir dele: "quando você entrou na empresa, com 19 anos, já era tão madura e responsável!" Mesmo que tenha dito isso depois de trocentos copos de cerveja. Porque leonino gosta de ser elogiado.

Relembrei histórias que aconteceram durante os dois anos em que estive por lá. As nossas célebres "tardes com as amigas" e os apuros na hora de pegar o ônibus na volta! Legal ver que cada uma está melhorando de vida, aos poucos.

E tinha gente do prédio, onde morei por dez anos e de onde saíram algumas das minhas atuais melhores amigas. Outras histórias, novas risadas. E tome abraços! Acho que nunca recebi tantos abraços... porque leonino gosta muito de receber carinho.

E teve a turma do PH, que nestes quatro anos e meio passou a ser minha também. E foi todo mundo e mais um pouco! Tanta gente que não consegui nem dar atenção a todos da mesma forma.

Da faculdade, já esperava que a melhor amiga fosse. "Nem que estivesse no Alaska", disse ela, e eu ri. E ela me abraçou forte como sempre e me disse aquelas palavras lindas que emocionam toda vez. Da facu, também, outro amigo me presenteou, aparecendo. Porque leonino adora surpresas e presentes, materiais ou não.

Os amigos mais recentes também passaram por lá. Da pós, uma visita rápida. Da turma do Trancendence, uma visita longa, que durou até as 4 da manhã, quando ninguém aguentava mais bebemorar. Mais risadas e planos de ir pra Bahia de Motor Home no final do ano.

Minha irmã, sempre presente, minha prima, que veio de Minas Gerais e resolveu ficar pra comemorar, meu namorado mais lindo e companheiro. Foram quarenta pessoas no total. Sim, eu contei, porque leonina é assim: adora estar rodeada de pessoas e de ser o centro das atenções.

terça-feira, julho 31, 2007

Inuká: uma loura com alma de índio

Lembro-me da primeira vez que a vi dançar. Usava um cocar de penas coloridas, muitos colares e roupas esvoaçantes. Seus cabelos louros e compridos até a cintura balançavam conforme as batidas da música eletrônica, impulsionados pelo vento constante da Bahia.

Pra ela, parecia não haver mais ninguém ali. De olhos fechados, balançava os braços e a cabeça, como se cada acorde, cada melodia, percorresse sua mente numa viagem psicodélica.

Aquela cena ficou marcada em mim. Quem seria aquela senhora tão bonita, que invocava deuses enquanto dançava?

Foi então que, numa tarde ensolarada do Maranhão - como não poderia deixar de ser - eu a vi sentada, conversando com Beth, minha vizinha de barraca. Sentei-me ao seu lado, invadi respeitosamente a conversa, e pude olhar bem de perto aquela mulher que, além de cabelos louros, tinha também penetrantes olhos azuis - e muita estória pra contar.

"Qual o seu nome?", eu pergunto, e ela, sorridente: "Inuká".

Durante algumas horas, viajei por tribos e vilarejos de todo o Brasil, mesmo sem sair de baixo daquela tenda cultural colorida. Inucá largou tudo, faculdade de direito, Rio de Janeiro, casa, para se dedicar aos índios. Descobriu-se xamã. Passou a percorrer tribos e a promover a cura através da dança e das ervas medicinais, e a cuidar de crianças desnutridas, e a ajudar os indígenas brasileiros de toda parte.

"Eles vivem na miséria, vocês não têm idéia!" E eu olhando fixo em seus olhos, medo de perder algum detalhe, a enorme semelhança física com minha mãe despertando um sentimento muito forte e involuntário por ela. Sentia-me um pouco sua filha, assim como cada um dos pequenos índios, que ela também chama de filhos.

E fizemos uma oração, e uma meditação em círculo dentro do rio, para renovar as esperanças de um novo ano.

E ela me ensinou sobre o xamanismo, sobre a relação hamônica com a natureza, sobre a vida.

E naquela noite, dancei bem perto dela, pra poder absorver toda energia e o poder de cura de sua dança.

domingo, julho 29, 2007

Festival Fora do Tempo














Uma ilha fluvial com 7 quilômetros de extensão, localizada entre os Estados do Tocantins e do Maranhão, que durante o período de seca na região (maio a setembro) oferece uma bela e ensolarada praia.

Esta paisagem, somada a um céu de múltiplas cores e dimensões, foi o cenário da segunda edição do Festival Fora do Tempo, que ocorreu entre os dias 20 e 25 de julho.

O local, conhecido como Ilha dos Botes, fica no município de Carolina – sul do Maranhão. Uma cidade pequena, com pouco mais de 20 mil habitantes, que recebeu com alegria toda a movimentação causada pelo evento.

Cerca de 2 mil pessoas participaram da comemoração do reveillón do calendário Maia, que calcula o ano de acordo com as fases da lua. Somando-se os ciclos da lua, temos um total de 364 dias, ou seja, fica faltando um dia para que o planeta Terra finalize seu movimento de translação. Este é considerado o “dia Fora do Tempo”, uma data para rever conceitos e idéias.

A preocupação com o impacto ambiental ficou clara desde a chegada à ilha. Os organizadores distribuiram kits contendo um sabonete biodegradável, uma semente de jatobá e uma camisinha. Estes sabonetes permitiram aos mais conscientes tomar banho sem poluir as águas do rio Tocantins.

Além disso, optou-se pelos banheiros ecológicos: latões enterrados na areia com cabines de madeira e palha de babaçu que geraram reclamações de alguns participantes, devido à falta de manutenção constante (cal e papel higiênico). Porém, esta forma de sanitário não deixa resíduos, pois os latões são retirados intactos após o término do festival.

Para quem esteve presente na primeira edição do Fora do Tempo, a surpresa foi grande – a estrutura praticamente triplicou de tamanho. A pista principal era rodeada de estrelas de madeira e palha, com tecidos coloridos oferecendo sombra. O maior destaque da decoração certamente foram os tótens com símbolos indígenas, produzidos com material reciclado pelo simpático artista uruguaio Antonio.

Com mandalas, tecidos e colchões espalhados pelo chão, o chill out estava aconchegante e sua sonorização ambientava as atividades que aconteciam logo ao lado, na tenda cultural.

Sem dúvida, um dos maiores investimentos desta edição do festival foi a praça de alimentação, com opções para todos os gostos. As mais de quinze barracas funcionavam 24 horas, e não faltou comida durante todo o tempo.

O que também não faltou foi boa música. Com o crescimento do evento, aprimorou-se também a estrutura de som, que tornou-se maior e com mais qualidade. A grande cabine, construída com toras de eucalipto, recebeu artistas brasileiros e estrangeiros. A proposta do evento de valorizar djs e produtores regionais manteve-se neste ano, e o que se viu foi um amadurecimento nas apresentações.

Foram muitos os convidados internacionais: Etic e E-jekt (Israel), Ital (Chile), Galaktik Wave (França), Rex (África do Sul), Hamelin e Ecliptic (México). Com desempenho de alto nível, os artistas mostraram um pouco de suas experiências nas mais variadas vertentes do trance psicodélico.

Sempre uma apresentação à parte, o trio Yagé – já conhecido por tocar nos principais festivais brasileiros – encantou o público com interferências musicais orgânicas como flauta, berimbau, tambores e até um berrante.

Dentre os artistas nacionais, destacaram-se os lives Cosmo Tech, Baphomet Engine, Crystall, Cannibal Barbecue, JP, Mental Broadcast e HYT, representando os Estados de Goiás, São Paulo, Bahia, Rio Grande do Sul e Pará.

A confiança depositada pelo evento em alguns djs nacionais trouxe como resposta boas surpresas. As principais delas foram os djs Diff (MA), Marcel (TO), Kali (ES), Piro (DF), Vinnix (SP), Pateta (PE) e Sarto (DF), que mostraram sets sérios e competentes.

É claro que os mais conhecidos não deixaram a desejar. Veteranos como Pedrão, Rodrigo CPU, Ekanta e Xamã fizeram jus à sua história na cena psicodélica nacional e movimentaram a pista de dança com técnica e responsabilidade.

Infelizmente, o caos aéreo impediu a chegada de importantes artistas. Um desfalque considerável foi o grupo paulista Pedra Branca, programado para tocar no último dia do festival. Mesmo assim, o chill out apresentou de reggae a jazz, com apresentações diversas como Smurf (SP), Pablo RST (CE), Radiola Rasta (CE) e o memorável versus entre a banda argentina Muamba e os integrantes do Yagé.

Para aqueles que buscavam uma transformação da consciência coletiva, as atividades culturais disponibilizaram não só entretenimento, mas principalmente troca de informações e experiências sobre os mais variados temas. Xamanismo, meditação ativa, oficinas, palestras e filmes ofereceram novos conhecimentos aos interessados.

A participação de grupos artísticos de várias partes do Brasil trouxe ainda mais magia à festa. Rituais de fogo, fantasias, tintas coloridas e intervenções teatrais permitiram um encantamento coletivo, que uniu os participantes em uma grande celebração.

Mesmo com a distribuição de “bituqueiras” (potinhos de filme fotográfico), era triste ver a quantidade de pontas de cigarro jogadas ao chão. A título de informação, este micro-lixo é formado por viscose, material que demora no mínimo dois anos para se decompor.

Ainda assim, o balanço final foi positivo. Era notável a integração entre o público de diferentes Estados, que voltou pra casa com algo diferente dentro de si: sentimentos de unidade, respeito e evolução espiritual.

Colaboração de PH Schneider

quinta-feira, julho 12, 2007

Drogas, glamour e palavrões

M - faaala Ri
R - blz?
M - blz e aí, como foi a festa do Valentino?
R - irada, perfeita
M - eu vi umas fotos no Uol Estilo, mas só das celebrities
R - eu vi várias celebrities, mas num sei quem era ninguém quase... tirei foto com algumas
M - vc viu a Uma Thurman?
R - Ricardo sent you a file -



M - CARALHO PUTA QUE PARIU!!
R - ela é horrorosa
M - eu acho ela linda
R - tem melhores. E ainda ela tinha acabado de dar uns tiros no banheiro (pelo menos foi o que eu e os outros 3 da foto concluímos)

segunda-feira, julho 02, 2007

A Graça da Vida

A vida tem muita graça, mas a gente só passa a percebê-la e valorizá-la de verdade quando alguma coisa de ruim acontece. E como a arte imita a vida (neste caso, literalmente), é assim também com Kate e Grace Griswald (Graziella Moretto e Nathalia Timberg) na peça "A graça da vida", dirigida por Aimar Labaki.
A estória fala da relação de amor entre mãe e filha, fortalecida depois da descoberta do mal de Alzheimer em Grace. O contato com o sentimento de perda, o desapego, as dificuldades em aceitar que uma pessoa próxima definhe aos poucos foram algumas das questões tratadas no espetáculo, que consegue ser engraçadíssimo e dramático ao mesmo tempo.
Entre risos e lágrimas, interpretações absolutamente perfeitas de todos os atores, que caminharam com desenvoltura pela comédia e pelo drama. Nathalia Timberg, alternando os estados de saúde e doença (em que ficava somente sentada, imóvel, com o olhar perdido), emocionou. Grazi Moretto (que também é a produtora da peça) trouxe um humor inteligente e sarcástico - além de ser linda. Emilio Orciollo Netto, na pele do médico Sam, transmitiu segurança e mostrou que tem talento também para o teatro (só tinha o visto pela TV).
O elenco se completa com Clara Carvalho, engraçadíssima como a perua-atriz Madge; Ênio Gonçalves, como Jack, o marido fraco e submisso de Grace que depois revela sua sexualidade enrustida durante anos, está impecável; Eliana Rocha está muito bem no papel de Lorna, a galinha de meia idade que conquista Jack durante uma viagem; e Fábio Azevedo, divertido e espevitado como Marty, assistente de Kate.
***

Kate é uma produtora de televisão que vive atribulada com o programa para o qual escreve. Mal tem tempo de ver seus pais, Grace e Jack. Um dia, Grace liga para a filha dizendo que há "homens estranhos pela casa", e Kate percebe que algo de grave está acontecendo. Leva a mãe ao médico, Samuel, que diagnostica o mal de Alzheimer.
A partir daí, o que se segue é a luta da filha para recuperar a dignidade da mãe, que aos poucos vai perdendo as células de seu cérebro, e não mais conversa, nem se move. O tratamento é doloroso, até que o surgimento de um novo remédio anima o médico e a filha. Ambos acompanham com entusiasmo a recuperação de Grace, que volta a andar, conversar e palpitar em tudo - as coisas voltavam ao normal, afinal. Pelo menos por um tempo.
Mais do que uma estória sobre vida e morte, "A Graça da Vida" toca profundamente em questões sentimentais. São fatos reais, escritos por Trish Vradenburg sobre sua mãe. Uma estória de luta pela vida, da busca por pequenos momentos de alegria quando já não há mais tanta esperança. Da valorização do que temos de mais precioso, mesmo que essa consciência só tenha surgido diante do sentimento de perda.

***
Serviço
A partir de 29 de junho no Teatro Vivo
Av. Dr. Chucri Zaidan, 860 - Morumbi
Tel.: (11) 3188-4141
Horários: Sextas às 21h30, Sábados às 21h00 e Domigos às 18h00
Ingressos: R$ 50,00 - inteira e R$25,00 - meia

domingo, julho 01, 2007

Mariana conta um

Porque tenho amiga Jéssica que não pode falar o nome sem ouvir "o nome dela é Jéssica/eu já falei pra você/é a coisa mais linda/que Deus pode trazer" e amiga Camila que perdeu as contas de quantas vezes já escutou seu nome pela voz de Humberto Gessinger (Camila-há, Camila!).

Tive a "sorte" de ter muitas músicas com meu nome. Não é que seja o nome mais lindo do mundo, nem que rime fácil com qualquer coisa - apesar de que rima mesmo. Eu acho, sim, é que há muitas Marianas queridas no mundo, que inspiraram muitas músicas. Da mais linda à mais irritante, seja pagode, sertanejo ou instrumental, qualquer homenagem é válida.

Yamandú - a mais linda
Há alguns dias escrevi sobre Yamandú Costa, e disse entre outras coisas que "Mariana" é sua canção mais bela. Isso levantou suspeitas sobre uma possível puxação de saco para o meu nome, mas não! Se ela se chamasse Paula, Iracema ou Beatriz (que aliás é a mais bela do Chico, na minha opinião) eu iria continuar achando que é a mais emocionante canção do instrumentista. Pena que não achei nada no Youtube pra mostrar aqui.

Sérgio Reis - a mais engraçada
Um dia, não me lembro quando nem onde, escutei uma música do Sérgio Reis chamada "Adeus Mariana". Na letra, o ex-jovem guarda e atual ídolo sertanejo canta seus conflitos com a brava Mariana: "e ela de zangada foi quebrando tudo/pegou a minha roupa e jogou porta a fora/agarrei, fiz uma trouxa e saí dizendo/adeus, Mariana que eu já vou embora."
O mais engraçado é que, ao final da música, ele começa a resmungar algumas reclamações sobre a esposa. Reclama, reclama e conclui: "eu sei que ela me bate. Mas ninguém tem nada com isso, quem apanha sou eu mesmo!" Sempre rio imaginando aquele homenzarrão de quase 2 metros apanhando da mulher. Até me identifiquei (hihi).

Sem compromisso - a mais irritante
Na época em que "Mariana, parte minha" (composta pelo Neguinho da Beija Flor com o grupo Sem Compromisso) estava na moda, era só falar o nome pra escutar a letra "Mariana te dou/Mariana calor/Mariana, parte minha/Mariana minha flor", graciosamente adaptada pela Rose (que trabalhava em casa) para "Mariana TINDÔ". Sim, ela não me chamava de nada, só de Mariana tindô.

Cantiga de roda - a mais cantada
Essa é a campeã de todos os tempos. No começo, beem no comecinho, eu até achava graça, mas não sei por que começaram a cantar demais, e tudo o que é demais irrita. Começava com: "Maaariana conta um/Um conta Mariana/É um, é Ana/Viva Mariana!" e chegava aos 8, 9, 10. Ainda bem que de uns anos pra cá, pararam com isso. É pra qualquer um passar a odiar o nome pro resto da vida, não?

sábado, junho 23, 2007

All that jazz

Cheguei um pouco nervosa, uma timidez que se revela toda vez que alguma situação nova está para acontecer. O coração acelerado, as mãos tremendo. Lugar aconchegante, a meia-luz oferecendo um clima intimista aos poucos participantes que já se encontravam reunidos.

Um a um, foram se apresentando. Nem precisava. Parecia que já conhecia cada um de longa data. Engraçado quando não se conhece uma pessoa, mas se sabe tanto sobre sua vida que se cria uma sensação de intimidade, mesmo sem ter tido nenhum contato anterior. E foi assim que me senti. Tinha vontade de conversar com cada um tal qual um amigo antigo.

Eles conheciam os pontos fortes e fracos uns dos outros, as melhores e piores histórias. Eram tão íntimos, tão entrosados, e por alguns momentos me senti à vontade para também ser parte daquele todo.

Porque, de certa forma, já era parte.

quarta-feira, junho 13, 2007

Cachoeira Alta Dance Festival

Cada festival possui sua peculiaridade. Cada lugar guarda uma energia única, uma beleza incomparável. E cada encontro psicodélico permite a integração entre pessoas que compartilham da mesma essência e dos mesmos objetivos. Um ritual coletivo, em meio à individualidade crescente na sociedade atual.
De 7 a 10 de junho, aconteceu na cidade de Ipoema, Minas Gerais, o Festival Cachoeira Alta. Aos pés de uma belíssima cachoeira de 100 metros de queda d’água, o festival mostrou-se bem organizado em todos os sentidos.
No primeiro dia, como não poderia deixar de ser, houve filas para ter acesso ao festival. Do amplo estacionamento, quatro vans se revezavam no embarque de pessoas e bagagens, rumo à revista – a qual felizmente ocorreu de forma ágil.
Logo na entrada do festival, era possível ver a numerosa quantidade de barracas espalhadas pelo lugar: nos gramados, ao redor do rio, qualquer canto que parecesse aconchegante logo era ocupado por uma barraca. Apesar do grande número, a impressão era a de que havia espaço para todos.
Não há como não destacar a decoração primorosa da pista principal, sob a responsabilidade da Space Devas. No palco, duas belas deusas verdes contrastavam com espécies de algas em cores fluorescentes, que brilhavam tanto sob a luz do sol – escaldante durante o dia – quanto à noite, devido às muitas lâmpadas de luz ultravioleta.
A maior surpresa decorativa certamente foi o enorme meteoro localizado no centro da pista. Dele, saíam “braços” robóticos, com luzes, acessórios e globos de plasma íon (aqueles círculos de onde saem raios, que se concentram em um ponto ao toque da mão), que causaram um excelente impacto à noite e divertiram os participantes que interagiam com a decoração.
A preocupação com a boa música ficou clara o tempo todo. Artistas nacionais e de várias partes do mundo demonstraram todo o seu potencial artístico. Era notável o empenho de cada um para mostrar novas sonoridades e envolver o público numa só atmosfera.
Logo no primeiro dia, os BPMs se mantiveram baixos, com as envolventes apresentações de James Monro, Kore e Marcello V.O.R.. As batidas subiram de velocidade com o live israelense BLT, e foram mantidas na apresentação de Sam Miura e do surpreendente live nacional Mad Hatters.
O segundo dia começou bem para os amantes do full-on. Mais uma vez, todo o potencial brasileiro foi mostrado ao público através dos trabalhos de Baphomet Engine, Interactive, Life Style e Wrecked Machines, além dos sets de Kali versus Sonicz, Kitty, Pin – considerado atualmente o maior destaque da cena mineira – e Du Serena, após o qual se reiniciou o trance e o house progressivo.
O live Solead roubou a cena, tocando ao final de tarde. A utilização do teremim – instrumento de origem russa que utiliza a vibração para emitir sons – trouxe um caráter ainda mais especial à apresentação, sucedida por Flow&Zeo, Perfect Stranger, The First Stone e os sets nacionais de Gugha, Mack e JP.
O sábado ensolarado não contou com a presença de Rica Amaral, mas houve uma inesquecível seqüência de apresentações: Dimitri Nakov manteve a pista em constante movimento, dando lugar ao set sensual de Julio Navas. Os suecos do Tegma e os dinamarqueses do Flowjob deram uma aula de trance progressivo, seguidos pelo set de Shane Gobi e o live de Shanti, praticamente um residente do festival.
Apresentação rara no Brasil, o Dj japonês Tsuyoshi Suzuki esquentou a madrugada fria de sábado com um set pesado repleto de solos de guitarra. A finalização, com o remix de “Hand that feeds”, do Nine Inch Nails, foi histórica. Os lasers e a lua maravilhosa colaboraram para isso.
O domingo amanheceu com uma sensação de “quero mais”. Muitas pessoas deixavam o acampamento e se dirigiam à saída, onde as vans faziam o trajeto de volta sem muitas complicações.
Sem a presença de Feio, o público dançou ao live sério de JP, que abriu para o dançante Triptych. Jota, que tocou em seguida, manteve a pista em polvorosa para a excelente apresentação do The Commercial Hippies. Dahan baixou os BPMs, abrindo para a impecável apresentação da Dj Tati.
A preocupação com a qualidade musical também foi expressa através do chill out. Sem a exuberância decorativa da pista principal, composto somente por grandes flores localizadas ao centro, o espaço possuía esteiras e almofadas coloridas para estimular o relaxamento dos participantes.
Com a abertura de Murilo Ganesh, o chill out recebeu apresentações de artistas das mais diversas vertentes, caminhando entre o dub, o ambient, funk, soul e o melhor em música experimental.
O grupo Pedra Branca, sempre muito aguardado pelo público, tocou com atraso no terceiro dia, devido a problemas com vôos. Mesmo assim, muitas pessoas se reuniram para acompanhar a apresentação envolvente do grupo.
Outro destaque do chill out foi a apresentação dos percussionistas da Tribo Espiral, que falaram sobre os princípios da religião rastafári enquanto contagiavam o público com seus instrumentos. O Dj Smurf, responsável pela organização artística do espaço, tocou no último dia um set repleto de muito groove, funk e jazz.
Com uma numerosa equipe de funcionários, que trabalhavam com afinco na limpeza das pistas e praça de alimentação, na manutenção e limpeza dos banheiros e fazendo a segurança do local (reforçada com a presença em massa da polícia), ficou provada a preocupação dos núcleos organizadores – Trance Movement, Kaballah, Euphoria e Psico Trance – com o conforto do público presente.
Durante todo o tempo, a praça de alimentação manteve-se abastecida e sem filas, assim como os caixas e bares . Com uma boa variedade de alimentos e bebidas, o festival não deixou a desejar em nenhum aspecto. Inclusive no que se refere ao impacto ambiental: com a coleta seletiva, muitos funcionários separavam o lixo reciclável e acumulavam toneladas de latas, papéis e copos plásticos.
Houve também uma série de palestras educativas sobre os mais diversos temas, filmes e documentários sobre a existência humana e muitas atividades culturais que permearam o festival. O tempo todo, era visível a satisfação do público em estar ali. Cerca de 2.500 pessoas interagiram na mais perfeita paz durante os quatro dias.
Em um recente levantamento, foi verificado que Minas Gerais é o estado brasileiro com mais festas rave por mês, depois de São Paulo. Mesmo que as festas trance não tenham surgido em Minas Gerais, e mesmo que o estado tenha ficado fora do eixo das grandes festas, aos poucos foi conquistando espaço e hoje se consolida como um importante centro de produção e divulgação da música eletrônica no Brasil.
Isto só foi possível graças à essência da população mineira, graças à preocupação com o bem-estar e à tranqüilidade perceptível em cada funcionário atencioso, a cada motorista de van que se divertia com as brincadeiras nas idas e voltas para a portaria.
O maior exemplo desta simplicidade é o Sr. Onelvino Coelho, o dono da fazenda Cachoeira Alta. O ex-tropeiro de 83 anos passava despercebido entre os participantes do festival, mas esteve lá durante o tempo todo. Simpático, circulava com sua Brasília amarela pelas estradas de terra, daquela que é a sua terra, mas que gentilmente ele concede há mais de quatro anos para a realização deste encontro alternativo mais que especial.
Fotos por P.H. Schneider. Mais aqui.

quarta-feira, junho 06, 2007

Enquanto isso, no barbeiro...

Acabo de conhecer e escutar o virtual barbershop, arquivo de som que reproduz fielmente a sensação de se estar sentado numa cadeira de barbeiro.

Descobri que isso se chama sonorização em 3D, e que é muito utilizada em cinema há alguns anos. Vi também que a técnica chama-se binatural recording, uma forma diferente de se capturar e reproduzir o áudio.

É só colocar um fone de ouvido que tenha um mínimo de potência (para que o som fique mais limpo e próximo do real) e fechar bem os olhos.

Ah! antes disso clique aqui.

Divirta-se!

segunda-feira, junho 04, 2007

A TPM e o viking do agreste pernambucano

Andava pela casa de um lado pro outro. Sentia-se sozinha, mesmo rodeada de familiares. Sensação estranha de não ter ninguém por perto. Uma tristeza vinda sabe-se lá de onde não permitia a concentração. E então, ela extravasou por onde menos poderia. Não tinha direito de ser egoísta naquele momento, de pensar só no seu ego ou de interferir na ordem natural das coisas.

Dessa vez ela pensou bem antes de explodir. E depois que explodiu, concluiu que mesmo assim poderia ter pensado um pouco mais, e que não faria de novo se pudesse voltar. Mas já era tarde. E o arrependimento é o mais cruel dos sentimentos, corrói internamente.

Aí, entrou no blog do seu músico preferido, e leu:

poética, algo, dias...
desapego...
medida exata que meus olhos viram
vi você por dentro, abro meu portal de erudição
que depois de tempos
viveu viveu

não te esperei muito
se é que você voltou na mesma rua...
tão perto do imaginário minha cabeça roda vento
e todo meu pensamento
ele sabe
ajusta com o planetário
ofusca e nem sobra o medo
e todo esse desespero
exagero...
do fogo do coração.

Demorou pra lançar o cd novo, Otto. Antes que ela pire de vez e não esteja mais aqui pra ouvi-lo quando ele sair. Rs. Desespero, exagero, é sim, tudo isso.

segunda-feira, maio 28, 2007

Três momentos de Yamandú

4 de março de 2004

Abertura do Festival Cultura Inglesa. Resolvi conhecer de perto o trabalho do violonista gaúcho Yamandú Costa, que já tinha visto em programas na televisão e me surpreendido com a agilidade nos dedilhados e com seu jeito rápido e até agressivo de tocar. A apresentação contou com a participação de outro violonista, o Alessandro Penezzi, que fez um duo com Yamandú em algumas músicas.
Yamandú Costa usava calças brancas de algodão, alpargatas também brancas e camisa larga. Levava um xale de pashmina colorido, que ia jogando pro lado pra não cair em cima de seu violão. “Não liguem para o meu jeito, é que me deram um Lexotan antes de entrar”. E assim começou sua apresentação.
Fiquei atordoada com tanta velocidade e mobilidade nas mãos. O músico consegue passar a impressão de que toca três instrumentos ao mesmo tempo, tamanha a rapidez com que toca suas belas canções. Fiquei chocada, no bom sentido. Me ganhou como fã na mesma hora.

17 de março de 2007
Três anos depois, fico sabendo de uma apresentação no Auditório do Ibirapuera (conhecido como Espaço Tim ou “triângulo do Niemeyer”). A dupla dessa vez seria o bandolinista Hamilton de Holanda*, que nasceu no Rio, mas mora em Brasília desde a infância, quando começou a tocar violino por falta de professores de bandolim.
A dupla tocou alguns dos sucessos de Yamandú – dentre os quais, elejo “Mariana” como a mais bonita melodia –, um pouco do trabalho belíssimo de Hamilton – posso destacar “Meiga” que me arrepiou – e também algumas releituras de canções conhecidas.
Vou pular a parte em que dois caras tiveram a capacidade de arrumar briga na platéia bem atrás de mim, porque as músicas estavam tão lindas e a harmonia entre os dois músicos era tanta, que eu consegui nem ficar brava com a situação.
“Vocês vão sair daqui cheios de notas na cabeça”, finalizou Yamandú, sem abrir mão de seu figurino habitual. Saí de lá, alguns meses se passaram, e eu continuo cheia de notas, melodias e lembranças daquela apresentação memorável. Veja por que:



“Meiga”, como não podia deixar de ser:


15 de maio de 2007
Leio no UOL que Yamandú acabara de lançar pela Biscoito Fino um CD em parceria com Dominguinhos. “Uau, essa promete”, pensei. Chequei a lista de músicas, composta por canções já conhecidas – como “Wave”, de Tom Jobim, e “João e Maria”, de Chico Buarque –, e outros sucessos.
Não deu outra, o álbum é maravilhoso.
A harmonia entre o violão de Yamandú e a sanfona de Dominguinhos, e a versatilidade de ambos os instrumentistas, permitiu uma grande flexibilidade entre os estilos, caminhando do forró à bossa nova. Pra ficar perfeito só falta uma apresentação ao vivo.

* Hamilton recebeu recentemente o prêmio Tim de Música como melhor solista instrumental.

quinta-feira, maio 17, 2007

O dia em que levei meu pai pra conhecer seus ídolos

"Hoje você conheceu um pouco mais sobre o seu pai. Foi meu dia de glória". E a filha ganhou o dia.









Chegaram à estação São Bento por volta das 12h30. Pai com o disco do Premeditando o Breque na mão, filha com o do Língua de Trapo. "Vou ver se eles assinam", ele disse. E a menina não sabia nem o que falar. Esteve no mesmo local, no dia anterior, e a experiência com o show do Teatro Mágico e milhares de pessoas se apertando fez com que ela quase tentasse impedi-lo de levar os discos. Mas havia de ser diferente, e ela prometeu a si mesma que faria o impossível para conseguir os autógrafos.

O Premê tinha entrado às 12h00, e para alegria de pai e filha o Boulevard São João não tinha um vigésimo do público do dia anterior. A voz de Wandi, já conhecida por suas diversas participações em trilhas dos programas da Tv Cultura, gritava: "Que legal!" Era Fim de semana, uma das únicas músicas que a filha conhecia do grupo. O som animado, com instrumentos de corda tocados com perfeição pelo Manga, o Claus ("esse cara sempre foi boa pinta") tocando flauta e o Marcelo, alternando teclado e cavaquinho, fizeram o público (quarentão, diga-se de passagem) vibrar.

Seguiram com seu estilo humorístico, com músicas como Jacaré também é gente - marchinha de carnaval versão reggae -, Pinga com limão e a engraçadíssima versão da música Give it away, do Red Hot Chilli Peppers ("a gente fez uma música, mas sabe como é né, passaram uns gringos aí e levaram embora).

O pai lá, levantando a capa do disco, balançando de um lado para o outro como quem diz: "olha eu aqui! Fã das antigas!". Foi quando Wandi, com seu jeito característico, anunciou: "estão vendo este disco que está na mão do nosso amigo? Nós vamos cantar uma música deste disco! Em show tem sempre aquela coisa de pedirem pra tocar um sucesso, sabe? E pra gente é fácil, a gente só tem um!"

E começaram a tocar a bela São Paulo, São Paulo, que inclusive foi eleita uma das três músicas que melhor representam a cidade. O pai ficou eufórico, eles o tinham notado! E a filha já se preparou para correr para o camarim assim que o show acabasse.

Um a um, foram descendo do palco e entrando no camarim. Pai e filha ansiosos, vinil e caneta na mão. Wandi caminha em sua direção, o pai acena. “Rapaz, mas você me aparece com esta relíquia!” Todos assinam e agradecem o apoio e a admiração do pai. A filha o abraça, sensação de missão cumprida.

Mais um show estava pra começar. Virada Cultural é assim mesmo, gente. É coisa boa atrás de coisa boa. E os dois se posicionaram em frente ao palco, pra poder ver o Língua de Trapo bem de perto.

Com um humor mais crítico, e sem alguns dos integrantes da formação original, o Língua subiu ao palco liderado por Laert. “Olha, é esse aqui”, disse o pai, mostrando a contracapa do vinil.

E o outro show surpreende da mesma forma. “Nossa pai, hoje em dia não vejo nenhuma banda que faça músicas assim, criticando a sociedade”. E o grupo não se resume a criticar, a satirizar: todos os músicos são muito bons. E eram muitos! O palco literalmente “ficou pequeno” pra banda, que, muito afinada e ensaiada, tocou os sucessos do “Disco azul” (de 1982, foto), o primeiro dos sete que lançaram em toda a carreira.

Entre uma música e outra, o pai levantava o vinil, e Laert anunciava: “essas são as músicas de nosso Disco Azul, esse aí, na mão do nosso amigo”. E a galera aplaudia. Ao final do show, mais autógrafos.

“Foi meu dia de fama e de glória”, o pai disse. E, mesmo com dor de garganta, chamou a filha pra tomar uma cerveja: “os caras merecem”.

Merecem.

segunda-feira, maio 07, 2007

eletrônico pra todos os gostos

Pista vazia, que delícia. Por P.H.

Saí do trabalho na sexta-feira crente que ia pra casa dormir. Nem na natação eu fui, pra não forçar o pescoço que sofrera uma lesão no dia anterior. No ponto de ônibus, e o celular toca:

- Amor, consegui um VIP pra você, quer ir no Skol hoje?
- Humm. Quero.

Saí de casa sem saber direito quem ia tocar, o que ia acontecer... e acabou que foi bom, viu? um megaevento muito bem organizado, com quatro pistas (ok, você tinha que andar uns 2km de uma a outra, mas tudo bem), decoração com temática oriental e muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo.

Consegui assistir inteira a apresentação do Addictive TV, que foi o melhor da noite na minha opinião. A dupla inglesa realizou a perfeita integração entre música e imagem, mesclando clipes do Queen, imagens de filmes como Kill Bill e Cidade de Deus e batidas marcantes com melodias atmosféricas.

Tive a oportunidade de conhecer também um pouco do trabalho do DJ Afrika Bambaataa, o precursor do hip-hop que tocou ao lado de dois MC's (não é o estilo de música que mais me agrada, mas valeu como experiência). E também assisti o Gui Boratto tocando guitarra, o grupo Sugardaddy com vocal, bateria e baixo ao vivo e o Nathan Fake com seu eletrônico melancólico.

Teria sido o suficiente chegar em casa às 07h30 de sábado. E não foi. Acordei às 18h00, pronta para participar dos dois dias da virada cultural. Mas isso fica pra outro post, que agora tenho mais o que fazer.

sábado, maio 05, 2007

Gui Boratto mostra trabalho conceitual com solo de guitarra

Direto do Skol Beats

Por volta das 2h30 da manhã, o Skol Live Stage recebeu as primeiras melodias da música de Gui Boratto. Com um live que mistura techno, minimal e electro, o paulistano agitou a pista principal, atraindo cada vez mais participantes para o espaço, até então relativamente vazio.

Os momentos de maior empolgação começaram quando Gui pegou a guitarra e os primeiros acordes soaram. Durante quase uma hora, o músico, compositor e produtor provou por que está sendo cada vez mais respeitado na cena eletrônica nacional.